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Os infinitos azuis do Sado

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  Uma nuvem alta sobrevoa o céu diáfano e uma brisa suave sopra uma fresca aragem de noroeste sobre o dédalo avermelhado dos telhados dos bairros velhos da cidade. Na face espelhada do rio reluz uma miríade de diamantes, que cintilam e rebrilham numa reflexão límpida e cristalina. O rio, sedento da sua amada foz, vem subindo, alongado e sinuoso, desde as altaneiras montanhas algarvias, galgando barrancos alentejanos, vagabundeando por entre verdes arrozais, na busca do ansiado mergulho na frescura da imensidade marítima. Na frente côncava da cidade, a beira-rio, como num passe de magia, transmuda-se em beira-mar, fundindo-se com o oceano numa variada e infinda paleta de azuis. A água, que ora flui, ora reflui, na eterna dança das marés, lambe docemente as muralhas do porto e cria redemoinhos espiralados de alva espuma de encontro ao areal dourado das praias. Este rio, que contraria azimutes e latitudes e vem correndo, discreto e silente, de sul para norte, e que vai encorpando as á...

Memória do Alentejo na obra fotográfica de Francisco Borba

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  (Ermida da Coroada, Safara) Estas cinco fotografias inserem-se num projecto que iniciei há muitos anos, e que não sei quando terminarei. Têm por título ‘’Memória do Alentejo’’. Tem sido um trabalho muito envolvente, que decorre da minha paixão pelo Alentejo e pela sua gente. Ao longo destes anos a fotografar, tenho feito muitos amigos, e estão por contar muitas estórias, algumas com o humor próprio dos alentejanos, e outras que revelam angústias escondidas, de vidas esforçadas. Vou continuar! Há-de chegar o tempo ver a luz do dia. Francisco Moniz Borba (Arca d'Água, Qta. da Amada) (Ermida S. Lázaro, Monsaraz) (Forno de Quinta do Garro, Varche) (Torre das Águias, Ciborro) Francisco Moniz Borba nasceu em Lisboa, a 13 de Dezembro de 1941, mas afirma-se setubalense de alma inteira, desde a segunda semana de vida. Em Setúbal, viveu a infância e grande parte da adolescência, até partir para Lisboa para se licenciar em Ciências Agrárias, no Instituto Superior de Agronomia. Fotó...

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (8)

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  Em 5 de Março de 1946, no jornal Diário da Manhã , João Ameal (1902-1982) iniciava assim a sua coluna “Rumos do Espírito - As Ideias e os Autores”: “A todo o momento ouvimos dizer que na vida moderna há cada vez menos lugar para os poetas. Terá razão quem o afirma? Vive o Mundo, nesta hora, entre receios e desconfianças. Vive, também, sob o signo dos ódios desencadeados pelo imenso fratricídio que há pouco terminou — e sob a opressão de uma paz inquieta, cheia de perspectivas alarmantes.” Este arranque é intenso no seu lamento e na sua esperança — a Guerra Mundial acabara meses antes e tornava-se nítida a procura da pacificação e a valorização da humanidade. Mas este introito servia também para Ameal chegar ao principal do que pretendia dizer: apresentar um novo poeta, Sebastião da Gama, através do seu primeiro livro, Serra-Mãe . E a primeira observação é de simpatia — “Sente-se que vive na montanha, mas na montanha em frente do mar - porque se conjugam, na sua sensibilidade, a f...