Memória do Alentejo na obra fotográfica de Francisco Borba

 


(Ermida da Coroada, Safara)

Estas cinco fotografias inserem-se num projecto que iniciei há muitos anos, e que não sei quando terminarei. Têm por título ‘’Memória do Alentejo’’. Tem sido um trabalho muito envolvente, que decorre da minha paixão pelo Alentejo e pela sua gente. Ao longo destes anos a fotografar, tenho feito muitos amigos, e estão por contar muitas estórias, algumas com o humor próprio dos alentejanos, e outras que revelam angústias escondidas, de vidas esforçadas.

Vou continuar! Há-de chegar o tempo ver a luz do dia.

Francisco Moniz Borba




(Arca d'Água, Qta. da Amada)


(Ermida S. Lázaro, Monsaraz)


(Forno de Quinta do Garro, Varche)


(Torre das Águias, Ciborro)

Francisco Moniz Borba nasceu em Lisboa, a 13 de Dezembro de 1941, mas afirma-se setubalense de alma inteira, desde a segunda semana de vida. Em Setúbal, viveu a infância e grande parte da adolescência, até partir para Lisboa para se licenciar em Ciências Agrárias, no Instituto Superior de Agronomia.

Fotógrafo desde os nove anos, idade em que recebeu de presente a primeira câmara fotográfica, que a expensas do meu Pai alimentava com filmes de pequeno formato, na Foto Cetóbriga de Américo Ribeiro, que além do mais revelava e imprimia as suas primeiras imagens. Veio depois um pequeno laboratório em casa, onde, com os reagentes e papel Gevaert, que o Sr. Américo lhe fornecia e ensinava a usar, revelava e imprimia as suas imagens numa pequena prensa de madeira.

Para além deste Mestre, foi sempre um autodidata, e só decorridos muitos anos teve a possibilidade de frequentar, em 2004, na APAF, um curso de fotografia básica e, no ano lectivo seguinte, 2004/05, um curso de Fotografia Avançada.

Tenho participado nalgumas exposições individuais e colectivas, fotografou vários eventos desportivos internacionais de Hipismo para uma revista portuguesa da especialidade, nomeadamente nos Jogos Olímpicos de Sydney, onde integrou a delegação portuguesa.


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Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (9)

              

Duas das críticas mais contundentes a Serra-Mãe apareceriam em Maio de 1946: uma, assinada por Jorge de Sena (1919-1978); outra, por João Gaspar Simões (1903-1987).

No jornal Mundo Literário, de 18 de Maio, Sena intitula o seu longo artigo como “Alguma Poesia e outras considerações desagradáveis”, nele abordando, entre outros, o livro Serra-Mãe, de Sebastião da Gama, parte que se inicia em tom acutilante sobre os novos poetas portugueses — “Há, nitidamente, na mais jovem poesia portuguesa, um retrocesso. Tenho observado, com mágoa, a infinita suficiência destes livros. Quer formal, quer intimamente, estamos na época da ‘Maria-vai-com-as-outras’. E tudo serve: as descobertas ou hábitos formais dos outros, o grande destino do homem (que merecia mais meditação e menos declamação), até a própria habilidade rítmica. Tudo serve, desde que seja possível o indivíduo convencer-se, e aos seus pares, de que é poeta.” O comentário prossegue, em tom mais ou menos metafórico, para criticar a busca das influências nos novos autores, algo que Sena qualifica como uma “miopia extrema”, percebendo-se que as considerações são também para os críticos, sobre quem escreve: “Nunca se publicaram tantas críticas, e nunca, suponho eu, se leram tantos metros de prosa, impressionista, didáctica ou erudita, falando de tudo, menos da essência da obra criticada.” Talvez estas palavras se dirigissem aos que já tinham escrito sobre Serra-Mãe, porque, para Sena, louvar este livro apresentava-se como uma fragilidade: “Aplaudir, hoje, o Sebastião da Gama de Serra-Mãe, sem denunciar que quase sempre repete outros maiores (repetir é diferente de encorporar na própria expressão); aplaudi-lo como, há anos, se aplaudiu um Marques Matias — e deixar rodeado de silêncio um José Régio, que terá muitos defeitos menos o de repetir Sebastião da Gama... — é enganar o poeta de Serra-Mãe.”

Embora Sena enalteça poemas como “Céu”, “Nós”, a primeira metade de “Cortina”, “Elegia desta Manhã” e “Poesia”, o tom das suas observações afigura-se exagerado nos comentários ao uso da sinestesia ou de outras construções e à aproximação à poesia mística: “Observo-lhe que, para ser na Arrábida um poeta místico, não é necessário um misticismo topográfico-literário, que eleva ou abaixa Fr. Agostinho da Cruz à categoria de ‘genius loci’. Que para falar de amor ou dulcificar a voz, não é preciso escrever com ‘soluços do sol’, ‘beijos na alma’, ‘carícias azuis’, ‘luz de seda’, etc.”

Uma dúzia de anos depois, em 1958, ao publicar a terceira série da antologia Líricas Portuguesas, por si organizada e anotada, Jorge de Sena incluía nove poemas de Sebastião da Gama e comentava que “a personalidade de Sebastião da Gama, o seu nobre carácter, a sua simplicidade pessoal, a frescura do seu juvenil e fraterno amor da vida, o seu destino cruel e malogrado, têm complicado muito — com o comovido culto que suscitaram — uma justa apreciação de uma produção poética vasta e irregular como a sua.” Relativamente à evolução dessa obra, acrescentava emergir “pouco a pouco, (...) apesar da tendência do poeta para ver-se como um ser infantil, ignorante, aberto sem discernimento a todas as solicitações da sentimentalidade, uma voz lírica de excepcional frescura, capaz de uma singela concentração expressiva, capaz também de uma fina transcendência do convencionalismo burguês, e fundamente sensível às coisas naturais e ao ar livre”.

A apreciação de João Gaspar Simões apareceu no jornal Sol, em 25 de Maio, também ela eivada de considerações sobre o que a crítica dizia a propósito de Serra-Mãe. Simões, recorde-se, tinha sido um primeiro leitor de Serra-Mãe, a quem o jovem azeitonense entregou os textos para apreciação quanto a publicação pela casa Portugália e, se ignoramos qual foi o comentário exarado, sabemos que a editora não assumiu a publicação. As considerações de Gaspar Simões não terão andado longe do que ficou registado nas páginas de Sol, onde, depois de elogiar o poema de abertura, “Harpa”, considera que, em vários poemas do volume, “a expressão não passa de um penoso exercício literário, onde o mau gosto se espoja correndo parelhas com o pior verbalismo”; que, quanto à religiosidade, “uma das coisas que mais concorre para esfriar qualquer entusiasmo pela poesia de Serra-Mãe é o despropósito com que se lançam súplicas místicas e se fazem protestos de humildade e devoção numa linguagem alheia a qualquer mero sentimento religioso”; que as marcas de Pascoaes, Régio e Sá-Carneiro são “falsas inspirações na sua adequação ao estro exuberantemente verbal que nos parece ser o de Sebastião da Gama.” E termina, entre a decepção e o que se diz sobre o livro: “O certo é que de um verdadeiro poeta ou não, o livro Serra-Mãe é livro que não passa despercebido no nosso movimento literário.”

Estes dois comentários não passaram ao lado para Sebastião da Gama, que, se não deu resposta pública, enviou ao seu amigo David Mourão-Ferreira um poema datado de 26 de Maio de 1946 (o dia seguinte à apreciação de Simões e pouco mais de uma semana depois das palavras de Sena), intitulado “Versos fora dos eixos”: “Estou-me matando prós críticos. / Hei-de cantar o que muito bem me apeteça, / hei-de sentir, hei-de pensar, hei-de berrar o que muito bem me apeteça. / Um grande raio que os parta mais às suas sentenças. // Se me der na maluca desato para aí a dizer palavrões / ou a escrever sonetos de Camões / começados do fim prò princípio / e com os acentos todos trocados. / Ou então (e que têm eles com isso?) não faço nada / senão olhar os Astros, de cócoras, / e fazer certa coisa para eles todos. // (...) // Deixem-me cá sossegado a fazer versos / marrecos ou escorreitos ou anémicos ou cheios de sangue na guelra / mas de toda a maneira versos / — uma coisa melhor que todas as suas pretensões, / todas as suas ciências, todas as suas opiniões, / e que mais belo do que eles só uma flor encarnada a nascer em cima de um telhado / sem se importar de saber se olham pra ela ou não...”

 

João Reis Ribeiro


Nota da redacçãoO Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a nona crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 4 de Março de 2026. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (9)". Nas próximas edições do blogue Synapsis, acompanharemos a publicação deste importante documento sobre o Poeta da Arrábida.


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 AGENDA



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Trovante, 50 anos depois ao vivo no MEO Arena

 

Os Trovante são um Grupo icónico de música popular portuguesa, formado em Lisboa em 1976, conhecido por êxitos como "Perdidamente", "Balada das Sete Saias" e "125 Azul". 

Misturando influências folk com a música tradicional portuguesa, a banda, que conta com Luís Represas e João Gil, entre outros, regressa aos palcos este ano para celebrar 50 anos de carreira, com dois concertos em Lisboa, no MEO Arena, dias 20 e 21 de Março.


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Dia Mundial da Poesia

A Associação Casa da Poesia de Setúbal convida a comemorar o Dia Mundial da Poesia na Biblioteca Pública Municipal, nos dias 21 e 25 de Março.



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Terra Poética

Grande exposição de Anna Maria Maiolino

Grandes esculturas de Anna Maria Maiolino convocam relações sensoriais e poéticas

No ano em que o museu celebra o seu 10.º aniversário, março abre portas a uma das propostas mais sensitivas e envolventes da programação do MAAT para 2026. A exposição Anna Maria Maiolino – Terra Poética pode ser visitada a partir de 25/03/2026 no MAAT Gallery. A par de desenhos e fotografias, a mostra apresenta várias esculturas em barro, incluindo um conjunto inédito de cerca de oito toneladas, modeladas in situ durante a montagem. Estas serão as maiores esculturas que Maiolino já realizou e revelam o percurso singular da artista e o seu compromisso com a matéria e o gesto, reforçando a dimensão física e poética da experiência do visitante.

 

Estas são também as últimas semanas para visitar as exposições Pedro Casqueiro – Detour e lápis de pintar dias cinzentos – Obras da Coleção de Arte Fundação EDP, que chegam ao fim no início de abril.

 

O MAAT apresenta ainda um programa especial destinado a pessoas com demência e aos seus cuidadores, que convoca a exploração da arte de forma sensorial e acessível.


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Mário Zambujal: um malandro dos bons


Jornalista, escritor, argumentista, guionista de séries de televisão, comunicador de excelência, assim foi o alentejano de Amareleja, Moura, Mário Zambujal, que nos deixou há poucos dias. 



(Mário Zambujal, Batista Bastos e Rosa Lobato Faria)

Foi provavelmente um dos jornalistas portugueses mais ecléticos e versáteis, tendo exercido funções de direcção em jornais desportivos, diários generalistas, semanários ou jornais de temática cultural. Apresentou e colaborou em inúmeros programas de televisão e rádio ao lado de nomes como Carlos Cruz ou Raul Solnado. Autor de mais de duas dezenas de livros, a sua primeira e mais conhecida obra ('Crónica dos bons malandros' - 1980) seria adaptada para o cinema e ainda hoje é um clássico do cinema português. Com uma produção literária impressionante, Mário Zambujal publicou desde 2003 até 2025 praticamente um livro por ano.  


José Alex Gandum


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FICHA TÉCNICA

Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum

Textos: Francisco Borba, João Reis Ribeiro e José Alex Gandum

 Imagens: Casa da Poesia, Francisco Borba e José Alex Gandum

Imagem de capa: José Alex Gandum

Edição de Salvador Peres




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