Memória do Alentejo na obra fotográfica de Francisco Borba
Estas
cinco fotografias inserem-se num projecto que iniciei há muitos anos, e que não
sei quando terminarei. Têm por título ‘’Memória do Alentejo’’. Tem sido um
trabalho muito envolvente, que decorre da minha paixão pelo Alentejo e pela sua
gente. Ao longo destes anos a fotografar, tenho feito muitos amigos, e estão
por contar muitas estórias, algumas com o humor próprio dos alentejanos, e
outras que revelam angústias escondidas, de vidas esforçadas.
Vou
continuar! Há-de chegar o tempo ver a luz do dia.
Francisco Moniz Borba
Fotógrafo desde
os nove anos, idade em que recebeu de presente a primeira câmara fotográfica,
que a expensas do meu Pai alimentava com filmes de pequeno formato, na Foto
Cetóbriga de Américo Ribeiro, que além do mais revelava e imprimia as suas
primeiras imagens. Veio depois um pequeno laboratório em casa, onde, com os
reagentes e papel Gevaert, que o Sr. Américo lhe fornecia e ensinava a usar,
revelava e imprimia as suas imagens numa pequena prensa de madeira.
Para além deste
Mestre, foi sempre um autodidata, e só decorridos muitos anos teve a
possibilidade de frequentar, em 2004, na APAF, um curso de fotografia básica e,
no ano lectivo seguinte, 2004/05, um curso de Fotografia Avançada.
Tenho
participado nalgumas exposições individuais e colectivas, fotografou vários
eventos desportivos internacionais de Hipismo para uma revista portuguesa da
especialidade, nomeadamente nos Jogos Olímpicos de Sydney, onde integrou a
delegação portuguesa.
O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade
Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (9)
Duas das críticas mais contundentes a Serra-Mãe apareceriam em Maio de 1946:
uma, assinada por Jorge de Sena (1919-1978); outra, por João Gaspar Simões
(1903-1987).
No jornal Mundo Literário, de 18 de Maio, Sena intitula o seu longo artigo
como “Alguma Poesia e outras considerações desagradáveis”, nele abordando,
entre outros, o livro Serra-Mãe, de
Sebastião da Gama, parte que se inicia em tom acutilante sobre os novos poetas
portugueses — “Há, nitidamente, na mais jovem poesia portuguesa, um retrocesso.
Tenho observado, com mágoa, a infinita suficiência destes livros. Quer formal,
quer intimamente, estamos na época da ‘Maria-vai-com-as-outras’. E tudo serve:
as descobertas ou hábitos formais dos outros, o grande destino do homem (que
merecia mais meditação e menos declamação), até a própria habilidade rítmica.
Tudo serve, desde que seja possível o indivíduo convencer-se, e aos seus pares,
de que é poeta.” O comentário prossegue, em tom mais ou menos metafórico, para
criticar a busca das influências nos novos autores, algo que Sena qualifica
como uma “miopia extrema”, percebendo-se que as considerações são também para
os críticos, sobre quem escreve: “Nunca se publicaram tantas críticas, e nunca,
suponho eu, se leram tantos metros de prosa, impressionista, didáctica ou
erudita, falando de tudo, menos da essência da obra criticada.” Talvez estas
palavras se dirigissem aos que já tinham escrito sobre Serra-Mãe, porque, para Sena, louvar este livro apresentava-se como
uma fragilidade: “Aplaudir, hoje, o Sebastião da Gama de Serra-Mãe, sem denunciar que quase sempre repete outros maiores
(repetir é diferente de encorporar na própria expressão); aplaudi-lo como, há
anos, se aplaudiu um Marques Matias — e deixar rodeado de silêncio um José
Régio, que terá muitos defeitos menos o de repetir Sebastião da Gama... — é
enganar o poeta de Serra-Mãe.”
Embora Sena enalteça poemas como “Céu”,
“Nós”, a primeira metade de “Cortina”, “Elegia desta Manhã” e “Poesia”, o tom
das suas observações afigura-se exagerado nos comentários ao uso da sinestesia
ou de outras construções e à aproximação à poesia mística: “Observo-lhe que,
para ser na Arrábida um poeta místico, não é necessário um misticismo
topográfico-literário, que eleva ou abaixa Fr. Agostinho da Cruz à categoria de
‘genius loci’. Que para falar de amor ou dulcificar a voz, não é preciso
escrever com ‘soluços do sol’, ‘beijos na alma’, ‘carícias azuis’, ‘luz de
seda’, etc.”
Uma dúzia de anos depois, em 1958, ao
publicar a terceira série da antologia Líricas
Portuguesas, por si organizada e anotada, Jorge de Sena incluía nove poemas
de Sebastião da Gama e comentava que “a personalidade de Sebastião da Gama, o
seu nobre carácter, a sua simplicidade pessoal, a frescura do seu juvenil e
fraterno amor da vida, o seu destino cruel e malogrado, têm complicado muito —
com o comovido culto que suscitaram — uma justa apreciação de uma produção
poética vasta e irregular como a sua.” Relativamente à evolução dessa obra,
acrescentava emergir “pouco a pouco, (...) apesar da tendência do poeta para
ver-se como um ser infantil, ignorante, aberto sem discernimento a todas as
solicitações da sentimentalidade, uma voz lírica de excepcional frescura, capaz
de uma singela concentração expressiva, capaz também de uma fina transcendência
do convencionalismo burguês, e fundamente sensível às coisas naturais e ao ar
livre”.
A apreciação de João Gaspar Simões
apareceu no jornal Sol, em 25 de
Maio, também ela eivada de considerações sobre o que a crítica dizia a
propósito de Serra-Mãe. Simões,
recorde-se, tinha sido um primeiro leitor de Serra-Mãe, a quem o jovem azeitonense entregou os textos para
apreciação quanto a publicação pela casa Portugália e, se ignoramos qual foi o
comentário exarado, sabemos que a editora não assumiu a publicação. As
considerações de Gaspar Simões não terão andado longe do que ficou registado
nas páginas de Sol, onde, depois de
elogiar o poema de abertura, “Harpa”, considera que, em vários poemas do
volume, “a expressão não passa de um penoso exercício literário, onde o mau
gosto se espoja correndo parelhas com o pior verbalismo”; que, quanto à
religiosidade, “uma das coisas que mais concorre para esfriar qualquer
entusiasmo pela poesia de Serra-Mãe é
o despropósito com que se lançam súplicas místicas e se fazem protestos de
humildade e devoção numa linguagem alheia a qualquer mero sentimento
religioso”; que as marcas de Pascoaes, Régio e Sá-Carneiro são “falsas
inspirações na sua adequação ao estro exuberantemente verbal que nos parece ser
o de Sebastião da Gama.” E termina, entre a decepção e o que se diz sobre o
livro: “O certo é que de um verdadeiro poeta ou não, o livro Serra-Mãe é livro que não passa
despercebido no nosso movimento literário.”
Estes dois comentários não passaram ao
lado para Sebastião da Gama, que, se não deu resposta pública, enviou ao seu
amigo David Mourão-Ferreira um poema datado de 26 de Maio de 1946 (o dia
seguinte à apreciação de Simões e pouco mais de uma semana depois das palavras
de Sena), intitulado “Versos fora dos eixos”: “Estou-me matando prós críticos.
/ Hei-de cantar o que muito bem me apeteça, / hei-de sentir, hei-de pensar, hei-de
berrar o que muito bem me apeteça. / Um grande raio que os parta mais às suas
sentenças. // Se me der na maluca desato para aí a dizer palavrões / ou a
escrever sonetos de Camões / começados do fim prò princípio / e com os acentos
todos trocados. / Ou então (e que têm eles com isso?) não faço nada / senão
olhar os Astros, de cócoras, / e fazer certa coisa para eles todos. // (...) //
Deixem-me cá sossegado a fazer versos / marrecos ou escorreitos ou anémicos ou
cheios de sangue na guelra / mas de toda a maneira versos / — uma coisa melhor
que todas as suas pretensões, / todas as suas ciências, todas as suas opiniões,
/ e que mais belo do que eles só uma flor encarnada a nascer em cima de um
telhado / sem se importar de saber se olham pra ela ou não...”
João Reis Ribeiro
Nota da redacção: O Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a nona crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 4 de Março de 2026. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (9)". Nas próximas edições do blogue Synapsis, acompanharemos a publicação deste importante documento sobre o Poeta da Arrábida.
O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade
AGENDA
Trovante, 50 anos depois ao vivo no MEO Arena
Os Trovante são um Grupo icónico de música popular portuguesa,
formado em Lisboa em 1976, conhecido por êxitos como "Perdidamente", "Balada das Sete Saias" e "125 Azul".
Misturando influências folk com a música tradicional portuguesa, a banda,
que conta com Luís Represas e João Gil, entre outros, regressa aos palcos
este ano para celebrar 50 anos de carreira, com dois concertos em Lisboa,
no MEO Arena, dias 20 e 21 de Março.
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Terra Poética
Grande exposição de Anna Maria Maiolino
Grandes esculturas de Anna Maria Maiolino convocam relações sensoriais e poéticas
No ano em que o museu celebra o seu 10.º aniversário, março abre portas a
uma das propostas mais sensitivas e envolventes da programação do MAAT para
2026. A exposição Anna Maria Maiolino – Terra Poética pode ser
visitada a partir de 25/03/2026 no MAAT Gallery. A par de desenhos e
fotografias, a mostra apresenta várias esculturas em barro, incluindo um
conjunto inédito de cerca de oito toneladas, modeladas in situ durante a
montagem. Estas serão as maiores esculturas que Maiolino já realizou e revelam
o percurso singular da artista e o seu compromisso com a matéria e o gesto,
reforçando a dimensão física e poética da experiência do visitante.
Estas são também as últimas semanas para visitar as exposições Pedro Casqueiro – Detour e lápis de pintar dias cinzentos – Obras da Coleção de Arte
Fundação EDP, que chegam ao fim no início de abril.
O MAAT apresenta ainda um programa especial destinado a pessoas com demência e
aos seus cuidadores, que convoca a exploração da arte de forma sensorial e
acessível.
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Mário Zambujal: um malandro dos bons
Jornalista, escritor, argumentista, guionista de séries de televisão, comunicador de excelência, assim foi o alentejano de Amareleja, Moura, Mário Zambujal, que nos deixou há poucos dias.
Foi provavelmente um dos jornalistas portugueses mais ecléticos e versáteis, tendo exercido funções de direcção em jornais desportivos, diários generalistas, semanários ou jornais de temática cultural. Apresentou e colaborou em inúmeros programas de televisão e rádio ao lado de nomes como Carlos Cruz ou Raul Solnado. Autor de mais de duas dezenas de livros, a sua primeira e mais conhecida obra ('Crónica dos bons malandros' - 1980) seria adaptada para o cinema e ainda hoje é um clássico do cinema português. Com uma produção literária impressionante, Mário Zambujal publicou desde 2003 até 2025 praticamente um livro por ano.
José Alex Gandum
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FICHA TÉCNICA
Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum
Textos: Francisco Borba, João Reis Ribeiro e José Alex Gandum
Imagens: Casa da Poesia, Francisco Borba e José Alex Gandum
Imagem de capa: José Alex Gandum
Edição de Salvador Peres












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