Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (8)

 


Em 5 de Março de 1946, no jornal Diário da Manhã, João Ameal (1902-1982) iniciava assim a sua coluna “Rumos do Espírito - As Ideias e os Autores”: “A todo o momento ouvimos dizer que na vida moderna há cada vez menos lugar para os poetas. Terá razão quem o afirma? Vive o Mundo, nesta hora, entre receios e desconfianças. Vive, também, sob o signo dos ódios desencadeados pelo imenso fratricídio que há pouco terminou — e sob a opressão de uma paz inquieta, cheia de perspectivas alarmantes.” Este arranque é intenso no seu lamento e na sua esperança — a Guerra Mundial acabara meses antes e tornava-se nítida a procura da pacificação e a valorização da humanidade. Mas este introito servia também para Ameal chegar ao principal do que pretendia dizer: apresentar um novo poeta, Sebastião da Gama, através do seu primeiro livro, Serra-Mãe. E a primeira observação é de simpatia — “Sente-se que vive na montanha, mas na montanha em frente do mar - porque se conjugam, na sua sensibilidade, a força e o equilíbrio da grandeza estável e o tumulto febril do movimento sem fim”, sendo isso que “dá aos seus versos um curioso sabor de ‘ansiedade contida’, de impulso capaz de dominar-se e disciplinar-se.” A preferência do crítico recai sobre alguns poemas, concluindo com uma observação promissora sobre o novo poeta “com a sua personalidade ainda em esboço, mas já segura e clara, para além da indecisa nebulosa das simples promessas”, que “soube construir o ‘seu’ mundo e soube mostrar-nos que vive, dentro dele, uma vida mais alta e mais pura”.

Duas semanas depois, em 19 de Março, era a vez de, no República, Alfredo Guisado (1891-1975) opinar sobre o novo livro: apesar de considerar que, por vezes, “a sua inspiração não o acompanha”, afirma estar perante um autor “que é sincero no que sente e no que escreve”. Recomenda depois Guisado que o novo poeta se não deixe “envaidecer com elogios” da imprensa e termina com uma síntese sobre esta novidade: “Tem ritmo, não descuida as rimas, tem bastantes imagens felizes e, deixando-se embalar pela escola modernista, não se deixa por completo absorver pelos que lhe serviram de modelo”, pois “começa mesmo a ter personalidade, o que é muito de apreciar num poeta e ainda mais num estreante”. E, para que dúvidas não ficassem no leitor, afirma, quase no final, ser “mesmo uma das melhores estreias que me têm aparecido desde que estou neste fraco ponto de observação”.

As réplicas da leitura de Serra-Mãe acabariam o mês de Março com a recensão assinada por Ruy d’Almeida no jornal Aléo, saído no dia 30, que se surpreende porque “não constrói Sebastião da Gama os seus poemas no signo da inspiração amorosa”, mas “verte o poeta em ilha dos amores o lugar em que está”, a serra da Arrábida. A opinião de Almeida, contudo, é de reserva, pois entende que o poeta “não nos revela neste livro as possibilidades definidas da sua personalidade”, apesar de considerar estar perante alguns poemas de “expressão lírica” de qualidade.

Na edição da revista Portucale referente ao mês de Abril de 1946, Amorim de Carvalho (1904-1976) reconhecia, em curta nota, que Serra-Mãe apresentava “sugestões de poetas como Sá Carneiro, Pessoa e Régio”, mas distanciava-se da valorização das influências para procurar “o melhor do livro”: uma “fina ironia”, a expressão da dor, uma “ânsia de ser, de existir, que busca penetrar na intimidade essencial da vida e do eu” que se “consubstancia com Deus, através de um estado de graça inefável e heróico”. Ponto alto desta apreciação surge quando é dito que este livro “tem atitude mental e filosófica, pondo o problema do Homem em Deus”, marca que lhe dá “uma personalidade poética original”, destacando diversos poemas cujo valor “o acreditam como poeta”.

No primeiro número de Abril da revista Seara Nova, datado de 6, Armando Ventura Ferreira (1920-1987) abordava também a primeira obra de Sebastião da Gama, confessando não haver “dúvidas de que temos perante nós um poeta”, mas acusando o papel dominante das influências — “lemos o seu livro e sentimos que a maioria dos seus poemas já nos é familiar”, encostando esta poesia a António Nobre, Sá-Carneiro e Régio, sobretudo a este último. No entanto, Ventura Ferreira realça o tom religioso da poesia de Gama, em que Deus se apresenta “como uma entidade concreta”, contrariando a interrogação metafísica que Deus é para Régio. O facto de Serra-Mãe ser visto como um conjunto muito próximo das influências leva o crítico a considerar não haver “símbolos em quantidade, nem em qualidade, tão-pouco uma dialéctica discursiva fluente”, existindo algumas “abstracções confusas, de pobre relevo poético”, pelo que aconselha, para futuro, que “Sebastião da Gama deve interrogar-se mais sobre a vida do nosso tempo e ser um poeta original do que glosar temas já suficientemente debatidos.”

A última apreciação de Abril de 1946 deve-se a Jaime Brasil (1896-1966), que, na edição do dia 17 de O Primeiro de Janeiro, em nota muito breve, acentua o tom místico de alguns poemas, dizendo serem gerados “naquela poesia que também inspirou Frei Agostinho da Cruz”.

 

João Reis Ribeiro

 Nota da redacçãoO Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a oitava crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 25 de Fevereiro de 2026. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (8)". Nas próximas edições do blogue Synapsis, acompanharemos a publicação deste importante documento sobre o Poeta da Arrábida.

·      



Synapsiano António Manuel dos Santos 

hoje na RTP1

 

O synapsiano António Manuel dos Santos é um dos convidados do documentário 'Contar o Tempo' que passa às segundas-feiras na RTP1. 'Contar o Tempo' é uma série documental que aborda o processo de envelhecer em Portugal através de retratos emotivos e depoimentos na primeira pessoa, desafiando tabus, preconceitos e realidades sociais muitas vezes omissas. Testemunha como é sentido, vivido e percepcionado o processo de envelhecer em Portugal. Quem dita o fim da juventude e o início da velhice? Que regras, conflitos e sonhos dominam a camada mais representativa, mas menos representada, do país e do mundo em que vivemos? Além de António Manuel dos Santos, o programa desta noite vai contar também com depoimentos de Madalena Silva e Albertina Costa.  

Segunda-feira, dia 9 de Março, RTP1, às 23h15


José Alex Gandum




You’ve Got a Friend

Em 1973, quando dava os primeiros passos na aprendizagem da guitarra clássica, aprendendo os rudimentos da árdua e complexa arte do arpeggio, o tema musical You’ve Got a Friend, tocado e cantado por um grupo de jovens amigas, conquistou imediatamente a minha atenção. You’ve Got a Friend é um clássico da música popular norte-americana, escrita por Carole King, em 1971, para o álbum Tapestry. Este tema musical, um hino de amor, de amizade, de união e de esperança, tornou-se, numa versão de James Taylor, também gravada em 1971 para o seu álbum Slide Slim and the Blue Horizon, um enorme sucesso comercial, que rapidamente conquistou a admiração de milhões de pessoas em todo o mundo. Só muito mais tarde, quando já dominava razoavelmente a técnica da guitarra, consegui começar a tocar razoavelmente o tema. O que fica destas memórias, para além de recordar um tempo extraordinário da minha vida, quando ingressei no Agrupamento escuteiro da Ordem Terceira, é o ressoar daquela música maravilhosa. Mal ouço os primeiros acordes de You’ve Got a Friend, dou comigo a recuar décadas e revejo, com uma nitidez extraordinária, as vivências desse maravilhoso espaço e tempo que vivi. A música tem este poder extraordinário sobre nós. Outras músicas e outros contextos guardo no arquivo da memória. Cada um sinalizando momentos únicos e irrepetíveis da vida. Hoje, voltei a ouvir James Taylor interpretando You've Got a Friend. As palavras e a música de Carole King continuam, passados todos estes anos, a dar-nos a esperança de que existe, algures, algo assombroso, que nunca vimos nem compreendemos bem, mas que nos guia e nos conforta.


https://www.youtube.com/watch?v=nEFfzHiEKHY

 

Salvador Peres




50Cuts assinala o Mês da Mulher

 

A 50Cuts Associação Cinematográfica assinala o Mês da Mulher e o Dia da Poesia com a exibição, na Casa da Cultura, às 21h00, do filme " A Mulher que Morreu de Pé", de Rosa Coutinho Cabral, um filme sobre Natália Correia.

A 50Cuts anuncia também a exibição do filme de animação para crianças " O Fantasma de Canterville", filme baseado num conto de Oscar Wilde. 


50Cuts




Samuel Úria homenageado 

na Sociedade Portuguesa de Autores

 

Samuel Úria, um dos nomes que tem despontado na nova música portuguesa, esteve na semana passada na Sociedade Portuguesa de Autores como convidado de Carlos Alberto Moniz no encontro 'Autores cantados e contados'. Oportunidade para o artista contar como foi o seu princípio de carreira e como ela tem evoluído, tendo inclusive ganho um Globo de Ouro há poucos meses e ter participado no último Festival RTP da Canção 2026, onde actuou como convidado. Na altura Samuel Úria cantou canções do seu último álbum: https://youtu.be/j0zBYrOv48E 

 


FICHA TÉCNICA

Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum

Textos: 50Cuts, João Reis Ribeiro, José Alex Gandum e Salvador Peres

 Imagens: 50Cuts, José Alex Gandum e Salvador Peres

Imagem de capa: José Alex Gandum

Edição de Salvador Peres








Comentários

Mensagens populares deste blogue

“Serra de Agostinho” arrecada 3.º lugar no Festival Finisterra Brasil Film

A Exposição 'Faça-se Luz', em Setúbal, foi inaugurada no dia 16 de Julho

Exposição “Faça-se Luz” abre comemorações dos 50 Anos da Diocese de Setúbal