Filme "Memória da Água" concluiu filmagens em Tróia

 


Uma tarde de sol primaveril, na península de Tróia, foi o cenário para a conclusão, no passado Sábado, dia 28 de Março, das filmagens “A Memória da Água”, um filme de Alberto Pereira.

O personagem central do filme é um fotógrafo que parte em busca dos antigos barcos que, no passado, transportaram milhares de pessoas entre Setúbal e Tróia, e, hoje, jazem, abandonados, num areal suburbano e solitário da Mitrena.







A personagem do fotógrafo é interpretada pelo declamador João Completo. O pintor Nuno David participou nesta fase final das filmagens na pele de um pescador que guarda memórias de tempos saudosos, quando Tróia e Setúbal eram como irmãs, vivenciando, num vaivém entre as duas margens, memórias felizes partilhadas por muitas gerações de setubalenses.

O filme, com argumento e música original de Salvador Peres, vai, agora, entrar na fase de edição, prevendo-se a sua apresentação ao público para o último trimestre do ano.


O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade


Por entre os vinhedos de Azeitão



Sob o lema 'Por entre os vinhedos de Azeitão' a caminhada de Março do Synapsis realizou-se este Domingo, tendo começado no ponto de encontro marcado para a rotunda grande da Estrada dos Picheleiros, em Azeitão. Apesar da mudança da hora (menos uma hora de sono) os caminhantes não só não faltaram como chegaram bem a horas. 



Reunidos os madrugadores, seguiu-se pela chamada Estrada da Califórnia, ladeada por muros de pedra centenários e vinhedo de um lado e outro, além da paisagem virada a Norte deslumbrante e a perder de vista.

Mas a maior surpresa estava guardada para as vizinhanças do Moinho do Cuco, quando os caminhantes depararam com a encosta norte do maciço principal da Serra da Arrábida. Nem a contraluz impedia de admirar tal paisagem, aliás, até emprestava alguma magia ao muito verde que a Primavera ainda conserva depois de um Inverno onde a água foi abundante.



Os caminhos de terra batida desembocaram na Estrada dos Picheleiros e a subida até ao ponto de partida foi um pouco aliciada com a hipótese de ver Herman José a sair ou a entrar na Quinta do Vale, a sua propriedade no local. Não se viu o humorista, mas viu-se uma conhecida actriz a passar pelos caminhantes e a entrar nos domínios do 'Senhor Contente'.



Mas a questão que mais perdurou nos últimos metros da caminhada foi 'quando é a próxima caminhada e onde?'... o que será respondido e divulgado daqui a uns dias.

 

José Alex Gandum


O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade



As fotografias dos caminhantes


Carmina Almeida




A beleza da Flora no renascer na Primavera


Dina Santana




José Antunes



Pegada de Javali


Abelha


Sombras


O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade



Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (11)




As críticas ao livro Serra-Mãe, desde a sua publicação, em meados de Dezembro de 1945, até outubro do ano seguinte, de uma maneira geral, enalteceram o aparecimento da obra e do novo poeta, ao mesmo tempo que recomendaram a construção de um caminho mais pessoal, a necessidade de as influências literárias não se sentirem como imitação e a busca de uma linguagem mais elaborada; simultaneamente, desafiavam o jovem Sebastião da Gama a dar continuidade ao percurso encetado e mostravam-se esperançosas no crescimento do poeta.

As influências mencionadas apontam para nomes como Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), António Nobre (1867-1900), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), José Régio (1901-1969) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952), alguns deles citados diversas vezes nas obras de Sebastião da Gama. Entre os 62 poemas que constituem o livro Serra-Mãe, os críticos dessa época assinalaram 36 como sendo das suas preferências, num registo de escolhas em que há repetições e, em vários casos, apenas uma menção — os poemas mais citados são “Rebentação” (por Lindley Cintra, João Pedro de Andrade, Amorim de Carvalho, Carlos Relvas, David Mourão-Ferreira e Armando Ventura Ferreira), “Serra-Mãe” (por António Quadros, A. Pinto de Carvalho, João Pedro de Andrade, Maria de Lourdes Belchior, Vitorino Nemésio, João Ameal e A. Russinho) e “Vida” (por Manuel Antunes, José Noronha Gamito, Maria de Lourdes Belchior, Amorim de Carvalho, Carlos Relvas e Armando Ventura Ferreira). Os outros poemas valorizados nas críticas são, por ordem alfabética: “A corda tensa”, “A meus irmãos”, “Aceitação”, “Alegria”, “Canção”, “Céu”, “Claridade”, “Cortina”, “Diário de bordo”, “Do meu Amor”, “Elegia breve”, “Elegia desta manhã”, “Em que se fala do Menino Jesus”, “Eternidade”, “Harpa”, “Itinerário”, “Minuto”, “Nevoeiro”, “Nós”, “Oração da tarde”, “Oração de todas as horas”, “Para que tu não chores”, “Pequeno poema”, “Poema da minha esperança”, “Poesia”, “Presença”, “Remoinho”, “Ressurreição”,  “Romântico”, “Teimosia”, “Versos para eu dizer de joelhos”, “Versos quase tristes” e “Vontade”.

Pela voz de todos os críticos deste primeiro momento de recepção da obra Serra-Mãe passa a ligação à Arrábida como tema predominante, uma forma de olhar o outro, o mundo ou a vida personificados na serra, uma referência que, como já visto, foi crucial para Sebastião da Gama, não só como motivo literário, mas também como motivação local, como fascínio, como espaço de vida.

A produção literária do jovem poeta prosseguiu, em 1947, com a publicação de Cabo da Boa Esperança, o que iniciou um novo ciclo de recepção da sua obra. Contudo, Serra-Mãe viria, ao longo dos tempos, a ser tema de abordagem, na imprensa ou em livro, pelo olhar crítico de muitos nomes, de que se destacam Alexandre Ferreira dos Santos, Alexandre Ogino Sartório (que lhe dedicou uma tese de mestrado em 2021, Linda longa melodia imensa: Poesia e Mística em ‘Serra-Mãe’, de Sebastião da Gama, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), António Manuel Couto Viana (1923-2010), António Cândido Franco, António José Borges, António Mateus Vilhena, Artur Portela (1901-1959), Daniel Pires, Fernando Eloy do Amaral (1922-2008), Guilherme d’Oliveira Martins, João Maia (1923-1999), José do Carmo Francisco, Luciano Pereira, M. Gonçalves Martins, Manuel de Campos Pereira (1906-1981), padre Manuel Marques (1921-2007), Ruy Ventura, Virgínia Motta (1909-??) e Viriato Soromenho-Marques.

Apesar de o ano de 1947 ter tido um novo impulso na obra de Sebastião da Gama com um novo título, a verdade é que esse foi também o ano em que o jovem poeta de Azeitão interveio civicamente em favor da Arrábida, alertando vários jornais e personalidades para a iniciada destruição da Mata do Solitário. É conhecido o teor da carta enviada de Azeitão em 23 de Agosto desse ano, dirigida ao engenheiro Miguel Neves: “Socorro! Socorro! Socorro! O José Júlio da Costa começou (e vai já adiantada) a destruição de metade da Mata do Solitário que lhe pertence. Peço-lhe que trate imediatamente. Se for necessário, restaure-se a pena de morte. Socorro!” O tom da carta era exagerado, obviamente, mas intencional — urgia defender a Serra. Chegada a missiva ao conhecimento de Carlos Baeta Neves (1916-1992), ela foi o início de um processo que levou à criação da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) em 1948, organização que viria a ter influência na preservação da Serra e, mais tarde, na constituição do respectivo Parque Natural. A Arrábida continuaria a ser tema de apresentação e de convite à descoberta no opúsculo A Região dos Três Castelos, editado em 1949, concebido para a empresa Transportadora Setubalense.

Quanto à obra literária de Sebastião da Gama, Serra-Mãe foi, na verdade, o início de um ciclo — Alexandre Ferreira dos Santos defendeu, em Sebastião da Gama: Milagre de Vida em Busca do Eterno (2008), a existência de uma trilogia evolutiva na obra ântuma do poeta, iniciada com Serra-Mãe, constituído por poemas produzidos até 1945, correspondentes a uma época de “adolescência poética”; uma segunda fase, “contra o derrotismo e o triste fado lusitano”, com os poemas produzidos entre 1945 e 1947, que alimentaram Cabo da Boa Esperança (1947); finalmente, a terceira fase, de “maturidade poética”, com textos escritos entre 1948 e 1951, que compõem Campo Aberto (1951). Esta explicação faz sentido e vai ao encontro da opinião que defende serem os poemas mais tardios os melhores de Sebastião da Gama. No entanto, para o poeta, Serra-Mãe foi, apesar de todas as considerações críticas, a obra que mais peso terá tido no seu trajecto. Livro organizado e composto durante o período em que estudava em Lisboa, quando concluiu a licenciatura (1947, tempo em que já preparava o segundo livro), escreveu à amiga Maria dos Remédios Castelo-Branco (1929-2024), que o tinha felicitado por já ser “Poeta, Prosador e... Doutor”, afirmando: “Doutor. É cómico, sabes? O que me interessa na vida, o que, a meus olhos, me dá importância social e individual, aquilo, ainda, por que tudo sacrificaria — é isto de ser Poeta. A minha verdadeira licenciatura foi a Serra-Mãe. (...) E vou agora de cabeça erguida para o Cabo da Boa Esperança.” O primeiro livro era, assim, a carta de apresentação que obrigava a prosseguir o trajecto, tal como a obtenção da licenciatura se lhe afigurava como um instrumento para fazer o caminho...


João Reis Ribeiro

Nota da redacçãoO Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a décima-primeira crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 18 de Março de 2026. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (11)". 


O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade


FICHA TÉCNICA

Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum

Textos: João Reis Ribeiro, José Alex Gandum e Salvador Peres

 Imagens: Carmina Almeida, Dina Santana, Dulce Pereira, José Alex Gandum, José Antunes e Salvador Peres

Imagem de capa: José Alex Gandum

Edição de Salvador Peres








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