Histórias com vista para as férias

 


Há já alguns anos que o Algarve passou a ser a minha segunda escolha para férias. O Alentejo conquistou-me, para primeira escolha e sem dificuldade. Pela calma que nos faz abrandar, pelas paisagens de horizontes sem fim, pela gastronomia cheia de tradição, pelas pessoas simples e genuínas e, acima de tudo, pelo Alqueva.

Mas o Alentejo deu-me muito mais do que belas paisagens e boa comida. Deu-me encontros e descobertas que nunca imaginei encontrar numa região tantas vezes vista como "Portugal profundo".

Há alguns anos, num bem isolado monte alentejano, conheci uma antiga professora primária, já com uma idade muito avançada, com uma impressionante história de vida, que, com uma generosidade rara, me ofereceu alguns livros de Agostinho da Silva, após saber que eu nutria uma grande admiração e conhecimento por esse pensador. Eram exemplares especiais, com as páginas ainda por abrir, que tinham estado escondidos durante décadas num baú, num sótão, no Porto, para escaparem à censura e às buscas da PIDE. Nesse momento, percebi que tinha nas mãos muito mais do que livros. Eram testemunhos de um tempo em que até as ideias precisavam de se esconder para sobreviver.



Passaram-se alguns anos e, quando pensei que dificilmente voltaria a viver uma surpresa semelhante, o Alentejo voltou a surpreender-me, e agora, muito recentemente, nestas férias de Verão. Durante a estadia num pequeno hotel rural de uma vila alentejana, entrei na sala de estar e deparei-me com o famoso facalhão usado por Indiana Jones no filme “Os Salteadores da Arca Perdida”. A peça, cuidadosamente guardada num móvel com vitrina, tinha sido comprada pelo proprietário, um colecionador particular, num leilão em Hollywood. Ali estava ela, a centenas de quilómetros dos grandes museus e dos estúdios de cinema, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.



É por isso que continuo a voltar ao Alentejo. Nunca sei se vou encontrar um pôr do sol sobre o Alqueva, uma conversa que não vou esquecer, um pedaço da história de Portugal ou um objecto famoso da história do cinema. No Alentejo, as maiores descobertas aparecem quase sempre onde menos se espera. É essa capacidade de nos surpreender, de forma simples e inesperada, que faz com que eu queira sempre voltar, e, quem sabe, ao encontro de novas surpresas.

 

Alberto Pereira


Histórias com vista para as férias

Da Batalha a Fátima/Cova da Iria


Todos os anos, por meados de Agosto, rumo à Batalha para passar meia dúzia de dias. Tento fazer coincidir alguns desses dias com as Festas do concelho, onde geralmente vão artistas que vale a pena ver e ouvir. Este Verão o convidado principal foi Camané e valeu cada canção e cada poema numa das melhores vozes de Portugal. 


Mas a Batalha não é só Mosteiro. É um local onde se come bem. Nem é preciso falar no 'Mosteiro do Leitão', restaurante famoso a dois quilómetros da vila. Também são famosas - e deliciosas - as tostas mistas e os hamburgueres do 'Gladius', bar com vista para o Mosteiro, e onde nunca falho. 



Ir à Batalha é também um convite para dar um salto a Fátima/Cova da Iria, se possível pela estrada de montanha. Convém ir cedo por causa do calor e da enchente de gente comum no mês de Agosto, quando os emigrantes portugueses regressam a Portugal para merecidas férias e muitos fazem questão de passar pela Cova da Iria. Mas este ano a visita foi tranquila e as tradições religiosas ainda são o que eram. 

 

José Alex Gandum

 

Histórias com vista para as férias

As férias são um registo extemporâneo


As férias são um registo extemporâneo (isso, exatamente nesse sentido) que por vezes nos leva quase a inventar lugares ímpares.

Vale mais tarde que mais tarde.


António Manuel dos Santos

 

Histórias com vista para as férias


Gostas pouco, gostas!

Uma aldeia chamada "Deixa o Resto". Um restaurante chamado "Gostas pouco, gostas!". Dois cafés: "Cá te Espero" e "Faz-te Esperto". O Alentejo no seu melhor, como estas imagens da praia de Morgavel.



Diná Lopes Peres

Histórias com vista para as férias


Porto Covo melhorou, ou talvez não… 



Achei a aldeia um pouco melhor de que no ano passado, quando a achei pobrezinha e degradada. Há muita animação. Muitas obras estão em curso, algumas que estavam paradas, recomeçaram. Claro está que este não é o Porto Covo de boa memória, dos anos oitenta e noventa. Mas, já se sabe: nada volta ao que era. Este é um lugar de quem chega de novo e gosta ou não gosta e fica ou não fica. Não é um espaço fechado, parado no tempo, mesmo naquele tempo que nós, que o conhecemos em tempos idos, entendemos ter sido o melhor. É outra coisa. Para olhos novos, que não tenham modo de comparação.

 Nada fica igual ao que era: nem nós, que somos outros, bem diferentes de quando andámos por cá nos anos oitenta e noventa. Isto é o que me parece. Mas não estou certo. Para variar. Nunca estou certo de nada. Fico sempre surpreendido com quem tem certezas acerca seja do que for. É gente admirável. Ou talvez não. Lá está, eu sou assim. Quem comigo lida, sobretudo os amigos mais próximos, acha que eu sou desses, dos que têm certezas acerca de tudo. Eu faço por isso. Esforço-me por parecer que sou de crenças. E a coisa resulta. Acham que sou seguro, fiável, porque tenho certezas. Não, não tenho. Mas isso que interessa? Nada. Não interessa nada. Não tenho vocação para pastor de almas, nem tenho intenção de fundar uma nova religião. Já bastam as que existem, tantas são, que pouco espaço deixam para que outras eclodam. Já se chegou ao fundo do tacho. Mas ainda se raspa em busca de mais deuses.

Aqui e ali ainda se vai inventando uma ou outra divindade. Mas já vem tudo muito esturricado. Os que foram sendo criados acotovelam-se lá pelo éter, ou onde quer que se acoitem. Cada vez me convenço mais que as divindades temem os seus criadores e mais ainda os fiéis, que lhes exigem este mundo e o outro, lhes suplicam, imploram, vociferam, acusam. Não se aguenta tanta fé à mistura com interesses egoístas e comezinhos. Pobres deuses, seres invisíveis, inodoros e incorpóreos, que ninguém sabe se existem ou são apenas delírios de alucinados. 

Que tem isto a ver com Porto Covo? Tudo e nada. Exactamente como o mundo e todas as coisas que nele abundam. Frutos concretos e reais a amadurecer num pomar de incertezas. 

 

Salvador Peres


Histórias com vista para as férias


AGENDA 

EXPOSIÇÕES DE NUNO DAVID E JOSÉ ALEX GANDUM

As Exposições de Nuno David, na Casa Memória Maria Luísa e Sebastião da Gama, em Azeitão, e de José Alex Gandum, no Museu Teatro Romano, em Lisboa, mantêm-se até ao fim deste mês de Setembro.

 

FICHA TÉCNICA

Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum

Textos e imagens: Alberto Pereira, António Manuel dos Santos, Diná Peres, José Alex Gandum e Salvador Peres

 Imagem de capa: Nuno David

Edição de Salvador Peres




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