quarta-feira, 1 de julho de 2020

Sete Luas



Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha de um cometa

Há noites que nos deixam para tràs
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só  o nosso nome estava certo…

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esperas
Os astros que se olham de perfil.

Natália Correia



Carlos de Medeiros nasceu nos Açores e vive em Lisboa.
O interesse pela fotografia começou em África, durante o serviço militar, nos anos setenta.
Regressado a Lisboa, prosseguiu o seu trajecto como fotógrafo, realizando as primeiras exposições nos anos oitenta.
Participou em inúmeros projectos colectivos, ou a título individual,  não só em Portugal, como no estrangeiro (França, Inglaterra, Espanha , Estados Unidos, Marrocos e  Cabo Verde).
Colaborou com o Théâtre de L’Éclat de Toulouse na realização de cartazes de teatro.
Publicou dois livros de fotografia: “Tierras”, Diálogo Godofredo Ortega Muñoz/Carlos de Medeiros, Diputación de Badajoz – Espanha; “Insomnia”, Amieira Livros – Lisboa.
Representado na Galerie Du Chateau D’Eau (Toulouse, França); Le Parvis (Tarbes, França);  Centro Português de Fotografia; Cinemateca Portuguesa de Lisboa; Teatro Nacional D. Maria II, Museu de Setúbal;  Museu Carlos Machado de Ponta Delgada, bem como em inúmeras colecções particulares.
É membro fundador do Synapsis.




segunda-feira, 29 de junho de 2020

O meu lenço da rota da seda



Em solavanco de ideias aterrámos no aeroporto
Sempre perscrutando a sensação das nuvens suspensas
À volta de questões inéditas num vacilar dos acontecimentos
Que traduziam uma viagem sob o balanço da existência.

As pessoas eram outras, mas as mesmas do mundo
Que iam ouvindo e discutindo num tropel de notícias
Onde augúrios agrestes de vozes da Europa ecoavam;
Ao sabor de um ritual no tempo de lendas e história
Pairava um ansiar de certeza, onde só valia a memória
Sentindo os reflexos irónicos de medos que arrebatavam.

As explicações do guia transmitiam aos lugares a inquietude
Que em órbita chegavam aos nossos telefones e audiovisuais
De um perpassar de saudade do ausente e uma global atitude
De aflição hirta e anormal dos povos em quotidiano lívido,
De conhecer este presente, de parar nestes momentos o rastilho.

A rota da seda desde sempre no meu imaginário, foi passeada
Não com sentido do verdadeiro amante do conhecimento e viajada,
Mas com a pressa de Samarkanda e desse tempo sentir o seu pulsar,
Sem a sensação agora de seda no coração, mas com todos os sentidos
Levados à idade de uma rota com o comércio, peste e gentes a cruzar.

De novo no aeroporto, num breve descolar já com sabor a aterragem
Qual cidadãos impúberes a atravessar países compassados
Que se sentem em aldeia, agora globalizada de modo ardente
Pela memória comum, ora perpassando lonjuras de fadiga, ora de amor
Voltei a observar as nuvens e pareceram-me continuar suspensas!

Só o meu lenço de seda me trouxe a suavidade, a necessária na ausência
Para calcorrear a vida dos homens e dos meus, a minha essência.




Isabel Melo, desde cedo preconiza a cidadania como motor central na sua vida. Licenciada em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, Advogada, Professora na ESCE, Jurista, Consultora, Doutoranda em Direito na Universidade Complutense de Madrid, tendo nessa qualidade escrito artigos sobre Direitos Humanos e Direitos fundamentais. Sempre conciliou a sua actividade profissional com a área cultural e social e em termos de participação na cidadania tem estado ligada a diversas iniciativas, movimentos ou associações culturais da cidade de Setúbal. Com a paixão das viagens e da poesia, ajudou algumas associações de poesia a retomar na cidade o conceito de tertúlia, enaltecendo os seus poetas e escritores, culminando com algumas colectâneas. Tem levado a poesia às escolas ou outras instituições locais, bem como através de eventos Solidários. Participou ainda em conferências várias, bem como em revistas e jornais de âmbito local e regional, aliando sempre um pouco do seu conhecimento e do saber às vertentes da cultura que mais a entusiasmam.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Modernidade Líquida




Está na natureza dos homens catalogar o passado, questionar o presente e antecipar futuros prováveis. Foi sempre assim e, presume-se, assim será sempre. Pelo menos enquanto os homens forem as irrequietas criaturas que conhecemos, esses seres capacitados para pensar, idealistas, curiosos e sempre prontos para irem em demanda do desconhecido.
É de há muito conhecida a propensão humana para catalogar tudo o que mexe e o que não mexe. Mesmo o invisível, o não perceptível ou o apenas vagamente concebível.
Cataloga-se hoje a sociedade dos humanos com o termo “modernidade líquida”, que foi o conceito encontrado pelo pensador Zygmunt Bauman para caracterizar a liquidez, a fluidez, a volatilidade, a incerteza e a insegurança dos tempos que correm. Um tempo de egoísmos levados ao extremo, em que os alicerces que seguram as instituições ameaçam ruir e despenhar-se numa  desordem absoluta. Um tempo de deslaçamento das relações inter-pessoais, de consumo desenfreado, de desarmonia.
Mas que estranho tempo é este? E será estranho?
Talvez seja estranho para alguns, poucos, que se dão ao trabalho de continuar a demanda de tentar ler os sinais dos tempos, perguntando: para onde caminha esta sociedade aparentemente desorientada, caótica e sem horizontes?
Para os que navegam nessa modernidade líquida, o tempo está alinhado com o rumo e o rumo não é certo nem errado, é somente o destino que sopra nas velas e os leva para futuros que não perdem tempo a questionar; para os que olham do cais e questionam a viagem, ocorre o velho preconceito de que a modernidade, seja qual for as roupas que traje, sulca águas perigosas rumo a um iminente naufrágio.
Não há alternativa a esta modernidade, como nunca houve alternativa a outras modernidades que hoje só são lembradas em compêndios de história. A uma modernidade, outra modernidade se seguirá. Não será já líquida. Talvez possa ser gasosa: alguém há-de encontrar o termo adequado.
Há muito que outros pensadores defendem que não há, nunca houve, nem jamais haverá sociedades perfeitas. Sólidas, líquidas ou gasosas, serão, enquanto forem, sociedades de homens. Mais egoistas ou solidárias; menos atreitas à família, ao grupo, aos amigos, à cooperação; ou fundamentalistas gregárias, apegadas às instituições, amantes da pátria, tementes a Deus.
Quem sabe o que nos reserva o futuro? Ninguém.
Sabemos apenas que alguém tentará sempre catalogá-lo.


Salvador Peres

(Artigo publicado no Magazine Synapsis Primavera 2018)

terça-feira, 23 de junho de 2020

"Diamantes no Rio" no Faro´s International Short-Film Festival 2020




O filme “Diamantes no Rio”, de Alberto Pereira, foi selecionado para exibição pelo júri do Festival Internacional de Curtas-Metragens do Algarve, a realizar em Faro, no próximo mês de Julho.
O filme segue o percurso do Sado, desde a nascente, nas altas serranias do Algarve, até à orla da mística Serra da Arrábida, depois de se espraiar pela bela e sonhadora baía da cidade de Setúbal.  
“Diamantes no Rio”, integralmente realizado no decurso do estado de emergência imposto pela eclosão da pandemia Covid 19, tem a seguinte ficha técnica:

Realização – Alberto Pereira; Texto – Salvador Peres; Narrativa – João Completo; Tradução – Maria Helena Mattos; Produção – Synapsis

Excerto do texto do filme:

“Uma nuvem alta sobrevoa o céu diáfano e uma brisa suave sopra uma fresca aragem de noroeste sobre o dédalo avermelhado dos telhados dos bairros velhos da cidade. Na face espelhada do rio reluz uma miríade de diamantes, que cintilam e rebrilham numa reflexão límpida e cristalina. O rio, sedento da sua amada foz, vem subindo, alongado e sinuoso, desde as altaneiras montanhas algarvias, galgando barrancos alentejanos, vagabundeando por entre verdes arrozais, na busca do ansiado mergulho na frescura da imensidade marítima. (…)”


Salvador Peres

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Botes descansando na Doca dos Pescadores, Setúbal



Let´s stick together - Botes descansando na Doca dos Pescadores, Setúbal

Tirei esta foto num fim da tarde desta primavera na Doca dos Pescadores, em Setúbal.
A fotografia reflete uma certa paz, dado pelas águas calmas e pelos reflexos luminosos dessas mesmas águas. Os botes todos juntos, como que a descansar da faina do dia, são, para mim, um símbolo de história e tradição. Ora na rampa ora na água, ao longo do ano, estes pequenos botes, que se aventuram para meio do rio e foz do estuário, são, para mim, uma imagem reconfortante. Desde que me lembro, recordo-me de ver estes belos botes, de desenho tradicional e cores maioritariamente de azul-cobalto, na doca ou no rio Sado. E mantêm-se. E isso é bom, significa que há peixe, que há chocos e lulas apanhados de forma sustentável na toneira e que continua a haver bravos homens que se dedicam a esta atividade, ou melhor, a esta arte.
Aos vê-los todos juntos, lembrei-me da música Let´s stick togehter, de Brian Ferry: https://youtu.be/lj0XD1NFa1I ou https://youtu.be/Z9EbR0ckb40


Eduardo Carqueijeiro, artista nas horas vagas. Natural de Setúbal, formou-se em arquitetura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, frequentou a AR.CO Lisboa-pintura e gravura e a Slade School of Art e Central St. Martins College of Art & Design. Concilia a sua experiência profissional em ambiente, com a sua prática artística através duma fusão entre arte e ciência, do qual tira partido nas suas exposições, performances, trabalho de ilustração e curadorias. Interliga como um todo narrativo a pintura em acrílico, a fotografia, a colagem, a instalação, a música e o vídeo.




sexta-feira, 19 de junho de 2020

Caminhando pelo cerro acima...




"... paisagem tão bela e hipnotizante, num dia dramático, sem sol, onde predominam o negrume e a solidão. Caminhando pelo cerro acima, um centenário moribundo, que já pouco vê e ouve tenta reunir as suas últimas forças para o percurso final. A sua silhueta, negra e pouco definida, confunde-se com o cascalho e a rocha, limitadas por um espelho de águas angelicais... "

Alexandre Murtinheira



Alexandre Murtinheira é professor de Artes Visuais na Escola do Ensino Secundário D. João II, em Setúbal. Artista multifacetado, desenvolve a sua actividade artística na fotografia, na pintura, na música e nas artes performativas. Tem vindo a desenvolver um trabalho meticuloso, através da experimentação de novos materiais, ensaiando e consolidando técnicas e processos, numa diversidade de recursos que resultam numa apresentação muito ecléctica, contemporânea e exploradora de uma estética inovadora. É membro fundador do grupo Synapsis.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Afinidades


AFINIDADES

A exposição está patente ao público na Sala Multiusos da Fundação Caixa Agrícola Costa Azul, em Santiago do Cacém, entre os dias 13 de Junho e 1 de Agosto, de Terça a Sábado, das 14h00 às 18h00.