A frágil beleza das flores em Nuno David
Técnica: aguarela. Três flores lilases. Com água ficam leves e quase
transparentes.
Técnica: aguarela. Verão, tempo quente. Colhidas e entregues num ramo, as
papoilas…
Técnica: óleo sobre tela, pintado com espátula. Iguais e diferentes na
forma, na cor e nos aromas também.
Técnica: pastel de óleo. São rosas, Senhor... duas brancas rosas e outras
num ramo só!
Técnica: guache sobre papel. A fragilidade, a beleza amarela das
flores... num verde triste e forte!
Técnica: aguarela. Não me julguem pelas carnudas folhas! Sou uma simples
flor amarela!
Técnica: aguarela. Oh, como é divertido misturar-me com outras, fazemos
um bonito e colorido ramo!
CRÓNICA
Arrábida “serra-mãe”
há 80 anos (5)
João Reis Ribeiro
Quando Serra-Mãe saiu, Sebastião da Gama empenhou-se na sua divulgação,
quer nas ofertas aos amigos e aos mais próximos, quer no envio para quem
pudesse ser o seu leitor crítico. Uma das primeiras dedicatórias (talvez a
primeira) terá sido para Joana Luísa da Gama, quando, tendo como data o Natal
de 1945, o poeta autografou: “Para Ti, Amor, porque sabes ler os meus versos
com uma voz que já se não distingue da minha.” Outras dedicatórias autógrafas
existem, mas não datadas, ainda que se pense que serão do tempo entre a saída
do livro e o ano seguinte — Mário Beirão (1890-1965) recebeu exemplar dedicado
com traços da serra (“Para Mário Beirão, alma inquieta provida de clarões, a
quem, na Arrábida, desceu a sombra de Agostinho a dar as boas-vindas”); no
exemplar que seguiu para Miguel Torga (1907-1995), era manifestada a admiração
pela obra já publicada do escritor e médico (“Ao Poeta admirável das Odes e de tudo o mais que me faz ser
seu”); Luís Amaro (1923-2018), o amigo que conhecera no espaço da editora, teve
o valor da amizade a iluminar a dedicatória (“Para o Luís Amaro: Nada mais me
trouxera a Serra-Mãe do que a tua
amizade e já tinha valido a pena”).
No mesmo dia 18 de Dezembro de 1945
(data em que o livro apareceu na montra da livraria, em Lisboa), Sebastião da
Gama fez seguir um exemplar para José Régio (1901-1969), mas não terá havido
resposta imediata, pelo que, em 7 de Fevereiro de 1946, o poeta azeitonense
escrevia de novo para Portalegre: “É tão grande o interesse em que leia os meus
versos e me diga, sem receio de melindrar-me se lhe não agradarem, o que pensa
deles que me atrevi a vir pedir-lhe isso mesmo, contando com a sua
benevolência.” Três meses depois, em 25 de Maio, era Teixeira de Pascoaes (1877-1952)
o destinatário de uma carta em que o jovem poeta se apresentava: “Deixe-me dizer-lhe quem sou, para me perdoar
um pouco a sem-cerimónia que tomei: sou um rapazola de vinte e dois anos que
aprendeu a ser Poeta na Serra da Arrábida. Ali fui medrando entre moitas de
alecrim e rochas penduradas sobre o Mar – e no Dezembro passado dei ao público
o meu primeiro livro – Serra-Mãe.
(...) Agora gostaria que lesse os meus versos com um bocadinho de carinho. E,
se eles o merecessem, que me mandasse algumas palavras, que hão-de ser sinceras
como as árvores, sobre o que sente da Serra-Mãe.”
Em data que não se consegue precisar,
Régio respondeu, em jeito de explicação e de apreciação: “Devo dizer que terá tido influência em tal
demora a perplexidade que me tolhe ao ter de pronunciar qualquer juízo sobre
uma obra como a sua. Claro que esse juízo pode enganar-se ou errar — mas nunca
deixar de ser sincero. Perante o meu Amigo, perante as gentilezas que me tem
dirigido, e sobretudo pela influência que sinto das minhas coisas literárias no
seu livro, a minha situação é ainda mais delicada. Creio que o seu livro é uma
obra de hesitação e promessa, na qual o talento literário se torna
incontestavelmente visível, como visíveis se tornam as influências várias. (…)
É um livro que já promete muito e nos deixa à espera.” De Coimbra, Miguel Torga
responderia, em 18 de Maio de 1946: “Nem posso medir o feito nem adivinhar o
que está por fazer, louvo o que entendo e espero o porvir de boa-fé. Ora é isso
o que me acontece agora com o seu livro. Não gosto de muita coisa que lá vem, e
tenho dificuldade em vislumbrar os seus caminhos futuros. Mas estou em presença
de um Poeta que escreveu: ‘Pequeno Poema’, ‘Nós’, etc. Resta-me, pois, festejar
o que me parece conseguido, que é muito, e dar tempo ao tempo.”
De
Amarante, Pascoaes não terá enviado resposta, mesmo apesar de nova insistência
saída do Portinho da Arrábida em 6 de Agosto de 1946 — “Há talvez três meses mandei-lhe uma carta e o meu livro Serra-Mãe; sei que não é o senhor desses poetas que se calafetam
dentro das suas torres de louros e não abrem a mínima frincha para falarem por
ela a um camarada mais novo: por isso mesmo, lhe mandei o livro; e por isso
mesmo tenho estranhado o seu silêncio. (...) Gostaria de saber qual o eco, se o
tiveram, que os meus versos tiveram nuns e noutros.” Mesmo com esta persistência, parece
não ter havido reacção de Pascoaes, uma opinião tanto mais importante para
Sebastião da Gama quanto o poeta do Marão tinha já escrito sobre a Arrábida e
sobre Frei Agostinho da Cruz. Aquando da sua viagem ao Norte, em meados de
Setembro de 1951, acompanhado por Joana Luísa (sua esposa desde Maio desse ano),
Sebastião da Gama marcou encontro com Pascoaes, relatado em crónica que
publicou no Jornal do Barreiro, em 11
de Outubro de 1951 — da leitura de tal texto se conclui, como apontou António
Mateus Vilhena (em ensaio sobre a correspondência de Gama para Pascoaes
publicado em 2019), que “um dos assuntos que polarizou o diálogo (...) foi
seguramente a Arrábida”. E, de toda a conversa, uma frase de Pascoaes
impressionou o visitante: “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu
pu-lo no Marão porque sou do Norte.” Não contendo estas afirmações uma
apreciação ao livro inaugural do jovem, reforçam, pelo menos, o sentido de
oportunidade da obra Serra-Mãe como
um momento importante para o canto e para o louvor da Arrábida, pelo que terá
sido, talvez, a melhor apreciação que Pascoaes poderia ter feito à obra...
Nota da redacção: O Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a quinta crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 7 de Janeiro de 2026. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (5)". Nas próximas edições do blogue Synapsis, acompanharemos a publicação deste importante documento sobre o Poeta da Arrábida.
O
carregador de telemóvel
Salvador Peres
Numa sala de um hotel,
alcandorado na encosta de uma conhecida serra do país, sucumbiam de tédio
alguns casais de meia-idade. A sala, confortável, albergava um mobiliário
composto de uma dúzia de pares de confortáveis sofás. Na frente de cada par,
encolhia-se uma mesinha baixita, onde esmoreciam copos meio debicados de um
líquido amarelado. Talvez resquícios de cerveja. Numa televisão de ecrã
ciclópico, esforçavam-se por se fazer ouvir três criaturas indignadas,
certamente a rebentar de razão. Mas o som estava muito abaixo do audível e não
se percebia nada do que diziam, deixando os indignados para ali a falar para o
boneco. Eram quatro, os casais. Ainda mais mudos que a TV. Corpos imóveis e
inteiriçados, à excepção dos polegares, que teclavam com ardor os écrans dos
telemóveis. Aqui e ali, deixavam escapar um trejeito de repúdio, um esgar de
reprovação, um movimento labial de anuência, um franzir de sobrolho de
desconfiança ou a ligeira deformação facial de um esforçado sorriso. Tirando
isso, nem um pio, não fossem as maquinetas, já imbuídas da mandona inteligência
artificial, desligar-lhes os écrans na cara. Ia para mais de duas horas a
sessão, quando um membro de um dos casais soltou um gritinho: a traquitana
tecnológica ficara sem combustível. Foi uma aflição. Gerou-se ali
momentaneamente um desacerto existencial e a ameaça de caos pairou sobre a
placidez da sala. Mas, como que por magia, apareceu um carregador de telemóvel.
E o mundo, e todo o universo com ele, voltou a levar a ordem e a harmonia aos quatro
casalinhos, aos sofás e às mesitas baixitas. O hotel respirou em paz.
AGENDA CULTURAL
A Associação Casa da Poesia de Setúbal convida a sessão Casa da Poesia
ConVida, no dia 24 de Janeiro de 2026, na Biblioteca Municipal de Setúbal,
pelas 15 horas. Com a participação dos Ecos D´Agora - Jograis Para Pensar
(Mário e Virgínia Santos).
João Completo
Conferência
'O que está para além do cérebro?'
A série televisiva 'Para Além do Cérebro' trouxe a debate público as grandes questões científicas sobre a espiritualidade e a necessidade de uma maior investigação e reflexão sobre o que estará para lá do desconhecido. Numa palestra única, com exibição de segmentos dos documentários e os testemunhos de reconhecidos cientistas, Luís Portela e Mário Augusto propõem uma tertúlia sobre o tema. Lançar inquietudes de pensamento e despertar a curiosidade são alguns dos objectivos da conferência que vai decorrer no próximo dia 23 de Janeiro, pelas 18h30, na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Lisboa.
José Alex Gandum
Ana Bacalhau no Teatro Maria Matos
Concerto de Ana Bacalhau na próxima quarta-feira, dia 21 de Janeiro, às 21 horas, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Bilhetes a 20 e 25 euros em ticketline e na bilheteira do Teatro Maria Matos.
José Alex Gandum
Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum
Textos: João Completo, João Reis Ribeiro, José Alex Gandum, Nuno David e Salvador Peres
Imagens: Casa da Poesia, José Alex Gandum, Nuno David e Salvador Peres
Imagem de capa: Alberto Pereira
Edição de Salvador Peres













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