Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (4)
Por meados de Setembro de 1945, Sebastião da Gama era apresentado
ao crítico João Gaspar Simões (1903-1987), a quem foi entregue o esboço de Serra-Mãe para apreciação, conforme o
poeta relatava à amiga Matilde Rosa Araújo, em carta de 20 desse mês: “Fui
ontem apresentado ao Gaspar
Simões. Simpático, gordo, baixo. Cabelos à Bocage. O Pedro de Andrade
quis que ele lesse o livro. A edição é caríssima e quer ter quem o anime a
arriscar. Espero que Sua Excelência não torça o nariz.”
Não conhecemos a opinião de Simões sobre o que poderia ser a
estreia de Gama; mas podemos imaginá-la se lermos o que, em 1951, o mesmo
Gaspar Simões escreveu sobre a publicação do terceiro livro de Sebastião, não
apresentando opinião muito favorável sobre a anterior obra do poeta de Azeitão:
“o autor de Campo Aberto, que, antes
de escrever e publicar os versos deste livro escrevera e publicara versos muito
diferentes, (...) procurando ser inspiradamente moderno, confundia a inspiração
com a retórica, a ênfase com a adivinhação e o galimatias com a analogia”
(crónica reproduzida em Crítica - II,
1962). Se não conhecemos em absoluto a opinião emitida pelo crítico em 1945, o
que sabemos é que, datada de 24 de Outubro desse ano, a resposta de Pedro de
Andrade (já referida na anterior crónica), co-proprietário da Portugália,
excluiu o livro Serra-Mãe do plano
editorial da casa editora. No entanto, o sonho da publicação persistiu e, se a decisão tomada pela administração da Portugália
abalou Sebastião da Gama, a vontade de publicar ultrapassou o esmorecimento e o
cuidado na organização e no conteúdo do livro ocuparam bastante do tempo do
poeta.
Em 25 de Julho de 1945, anunciara a
estrutura do livro a Matilde Rosa Araújo: “PRESENÇA - Os de tom místico
(‘Presença’, ‘Remoinho’, ‘Eternidade’, ‘Rebentação’, etc.). Abrirá por
‘Vibração’ e terá no fim ‘Cortina’. SERRA-MÃE - ‘Harpa’, ‘vida’, etc. - Os em
que falo da Serra. Porei talvez ‘Céu’ e ‘Versos ao Mar’. Achas que sim? POEMAS
DE AMOR - ‘Pequeno Amor’ (em 1º lugar), ‘A meus Irmãos’, do meu Amor, ‘Para que
tu não chores’, ‘Crepuscular’. JESUS - ‘Ressurreição’, ‘Oração de todas as
horas’, etc. APONTAMENTOS - ‘Versos da Menina Morta’ (1º), ‘Pasmo’,
‘Apontamento’, ‘Tradição’, ‘Paisagem’, etc. ÚLTIMO LIVRO - A começar, a ‘Elegia
desta manhã’. Depois ‘Canção’, ‘Poesia’, ‘Excesso’, ‘Quem me quiser amar’, ‘As
rosas’, etc. E quero fechar o livro com ‘Alegria’ e ‘Claridade’. Como se
tivesse atingido aquele estado que procuro com a minha poesia.” A amiga
responder-lhe-ia em 2 de Agosto, a partir de Peso (Melgaço), em tom fortemente
exclamativo: “Viva o Poeta, o grande Poeta 1945! Serra-Mãe é um bocado de sonho, de altura, que vai enluarar os
escaparates de Portugal neste inverno próximo futuro!”
A estrutura seguida na obra não
foi aquela que o poeta anunciara à amiga, tendo a opção ficado decidida com a
ordem “Serra-Mãe, Apontamentos, Jesus, Presença, Poemas de Amor e Último Livro”.
O grupo “Presença” abre com o poema “Presença” e conclui com o poema “Cortina”;
o poema “Vibração”, que só tem esse título nos manuscritos, foi escolhido para
iniciar o volume, ficando conhecido pelo seu primeiro verso - “A corda tensa
que eu sou”. No grupo “Poemas de Amor”, constam todos os poemas indicados,
embora “Pequeno Amor” tenha tido o título alterado para “Pequeno Poema”. No
grupo “Apontamentos”, não constaram os poemas “Tradição” nem “Paisagem” —
“Tradição”, datado de Novembro de 1942, só foi divulgado postumamente em obras
como O Desafio da Arrábida,
organizada por Eduardo Carqueijeiro (edição do Parque Natural da Arrábida /
Instituto de Conservação da Natureza, 1996, em artigo assinado por Joana Luísa
da Gama), no jornal informativo Cidadãos
pela Arrábida (Agosto.2000) e na antologia A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, organizada por António
Mateus Vilhena e Daniel Pires (Centro de Estudos Bocageanos, 2002); “Paisagem”,
datado de 13 de Junho de 1944, também não entrou neste volume, só tendo sido
divulgado aquando da publicação da poesia reunida de Sebastião da Gama no
volume O Inquieto Verbo do Mar
(Assírio & Alvim, 2024). No grupo “Último livro”, a alteração resultou de o
poema “Excesso” ter passado para o conjunto “Poemas de Amor”.
Lembra Joana Luísa da Gama, no livro Estala de saudade o coração (2013), que, “durante o ano de 1945 é
normal encontrar nas cartas o assunto Serra-Mãe.
Ou é mais um poema que nasce, ou mais um conselho de um amigo. É o nervosismo
de procurar editor”, depois de a publicação ter sido recusada pela Ática e pela
Portugália, situação ultrapassada porque os pais lhe disponibilizaram os
4800$00 necessários para uma edição de mil exemplares. E continua Joana Luísa:
“as cartas que se seguem são de loucura: as idas à tipografia a acompanhar a
impressão das folhas do seu livro, a revisão de provas porque não tinha
dinheiro para pagar a um revisor, etc.”
Finalmente, Serra-Mãe,
chancelado pela Portugália Editora, apareceria na montra em 18 de Dezembro de
1945, dedicado “à memória de meu tio, Alexandre Cardoso”, tendo na capa uma
vinheta concebida pelo artista Lino António (1898-1974), constituído por 62
poemas compostos em 1943 (4), 1944 (39) e 1945 (19), datando o mais antigo de
15 de Agosto de 1943 (“Céu”) e o mais recente de 21 de Agosto de 1945 (“A um
crucifixo”).
João Reis Ribeiro
Nota da redacção: O Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a quarta crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 17 de Dezembro de 2025. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (4)". Nas próximas edições do blogue Synapsis, acompanharemos a publicação deste importante documento sobre o Poeta da Arrábida.
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CRÓNICA
O Ano ainda agora começou:
qual é a pressa?
Quando se tem de esperar por algo, e como humanos, reage-se de maneiras
diferentes perante diferentes situações. Para uns assuntos, esperar uns
segundos é uma eternidade, e não raras vezes se amaldiçoa esse tempo de espera,
através de semblantes carregados ou até com palavreado socialmente menos
adequado; para outros assuntos, esperar um ror de horas é perfeitamente normal,
até se espera com um sorriso aberto e por vezes nem se acha que se esperou
muito tempo.
Vejamos alguns exemplos: quando se entra num elevador, os 10 segundos que
ele demora a fechar a porta e a iniciar a sua marcha ascendente ou descendente
quase que convida a impropérios, não se articulam só para não perder a
compostura social porque muitas vezes há outras pessoas no dito. No microondas,
30 segundos para aquecer o leite é uma eternidade, um desafio à paciência (ou
impaciência) do usufruidor desse alimento. Se forem 10 ou 15 minutos na fila de
uma caixa de supermercado, é "demasiado" tempo (há quem salte
impacientemente de uma caixa para outra na tentativa de ganhar um minuto ou
dois - muitas vezes ainda se perde mais tempo!)! Se o transporte público
(os que costumam andar a horas) se atrasa dois ou três minutos causa logo
ansiedade (se o atraso for maior a ansiedade cresce proporcionalmente). Tirar
uma senha numa repartição pública, mesmo para tratar de um assunto importante,
então, é um martírio, por vezes autêntica tragédia, seja o tempo de espera
muito ou pouco. Idem para usufruir de um serviço de saúde pública, vulgo
hospitais ou centros de saúde... e há muitos outros exemplos que combinam o
desespero, a ansiedade, a tristeza e a maldição!
Mas... mas se a espera tiver motivos - diga-se - emocionais, então o
tempo da dita espera "não existe". Se alguém for votar para a
presidência do seu clube desportivo é vulgar ouvir comentar: "estive
quatro horas na fila para votar, mas desta vez até não foi muito tempo, há
quatro anos foram seis horas!". Para assistir a certos eventos de música -
em especial com artistas na chamada crista da onda - é tranquilo esperar
horas, senão dias, para ficar colocado num local emocionalmente próximo do
desencadear de adrenalinas musicais. Ainda no que concerne a concertos ou
eventos de outro tipo, desportivos ou culturais, a relação entre tempo de
espera / paciência / ansiedade / aceitação é proporcionalmente inversa ao
interesse pelo referido evento! Mas não desespere, leitor: o artigo terminou!
Nota: a semelhança do título do artigo - 'Qual é a pressa?' - com uma frase proferida há anos por um dos actuais candidatos à Presidência da República Portuguesa terá sido mera coincidência!
José Alex Gandum
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AGENDA CULTURAL
A Associação Casa da Poesia leva a efeito a apresentação do livro “A Cidade e Outros Poemas – Antologia”. Esta obra reúne poemas e textos poéticos de 37 autores da Associação, bem como fotos a preto e branco da cidade de Setúbal, e ilustrações com temas poéticos. O evento terá lugar no Salão Nobre dos Paços do Concelho, na Praça do Bocage, em Setúbal, no dia 31 de Janeiro, pelas 16 horas.
João Completo
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31 de Janeiro, entre as 10h00 e as 12h00
No MAEDS – Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal
Venha com a família descobrir a Roma antiga!
A manhã começa com uma visita guiada à exposição temporária “Olarias Romanas do Baixo Tejo: Quinta do Rouxinol e Porto dos Cacos”. Segue-se uma oficina criativa, onde poderá modelar a sua própria lucerna em barro. A atividade termina com uma degustação de garum, o célebre molho romano!
Uma experiência única entre história, arte e sabores romanos!
Participação gratuita, com vagas limitadas.
Idade mínima: a partir dos 7 anos (acompanhados por um adulto).
Inscrições: https://forms.gle/BgWP2T3Ln1LK6qCNA
Ana Isa Férias
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CAMINHAR
Caminhada Synapsis
pelas Aldeias de Azeitão
O Synapsis dá início ao ciclo e caminhadas 2026, com uma proposta de percurso pelas históricas e pitorescas aldeias de Azeitão, no dia 25 de Janeiro.
A concentração terá lugar na Aldeia da Portela (ver link abaixo),
seguindo-se um percurso circular pela zona envolvente, num ambiente natural,
numa paisagem22 que se mantém intacta e quase inalterada.
https://maps.app.goo.gl/7FbhWUxe8UhsYZfd8
Caminharemos pelas aldeias da Portela, Piedade e S. Pedro, por entre vinhedos e floresta, com a presença imponente da cadeia montanhosa da Arrábida em fundo.
Programa:
08h30 - Concentração da Aldeia da Portela
09h00 - Início da caminhada
12h00 - Fim da caminhada na Aldeia da Portela
A caminhada é gratuita, mas obriga a inscrição até ao dia 22 de Janeiro para o email synapsis11@gmail.com
Salvador Peres
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Com a primeira edição do blogue Synapsis de 2026, desejamos a todos os nossos leitores um Ano cheio de desafios, com muitos motivos para sorrir e celebrar
Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum
Textos: Ana Isa Férias, João Completo, João Reis Ribeiro, José Alex Gandum e Salvador Peres
Imagens: Casa da Poesia, João Reis Ribeiro, José Alex Gandum, MAEDS e Salvador Peres
Imagem de capa: Carlos de Medeiros
Edição de Salvador Peres





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