Carlos de Medeiros - A autorrepresentação como elemento ficcional
A fotografia de Carlos de Medeiros é indissociável do seu trabalho
enquanto actor, em cerca de três dezenas de peças e quatro filmes. O teatro e o
cinema fizeram-no viver personagens, sentir a leitura de forma diferente,
explorar o que fica para além das palavras. A
Gaivota, de Tchekov, que representou o tetro no início da sua carreira,
marcou-o de forma peculiar. Nos trabalhos que expõe nesta sua última exposição,
Turdus Merula, a designação
científica do melro-preto, as asas dos pássaros, esse instrumento de liberdade
que os homens procuraram durante séculos replicar, são elementos presentes no
seu imaginário e uma constante da sua vida: nos Açores, onde nasceu e que
visita com frequência e na Azóia, junto ao Cabo Espichel, onde se refugia
muitas vezes.
No portefólio que se apresenta aos nossos leitores, constam
algumas fotografias dessa exposição, inspirada num texto dos Contes Cruels de Octave Mirabeau, Les Corneilles (Os Corvos).
É curioso notar que, no Teatro, sendo actor, como na fotografia
Carlos Medeiros comporta-se como um encenador, preparando o que vai fotografar,
escolhendo locais e adereços, dirigindo-se a si próprio no personagem que é o
narrador de toda a história, uma história onde o espaço exterior se cruza com
interiores, numa espécie de sucessão de cenários, que evocam a sedução, a
transformação, a morte e a solidão.
Como tem acontecido ao longo dos seus trabalhos de fotografia,
Carlos de Medeiros assume a autorepresentação e utiliza-a como mais um elemento
ficcional. Mostra-se, desafia o olhar,
está dos dois lados da câmara fotográfica numa permanente duplicidade. É este o
ponto em que as experiências, enquanto actor e fotógrafo se cruzam, numa
narrativa de intimidades e partilha de sensibilidades e segredos que faz
através das imagens.
Manuel Falcão
Arrábida
“serra-mãe” há 80 anos (7)
Ainda em 1945, quase no findar do
ano, o livro Serra-Mãe foi objecto de
apreciação por António Quadros (1923-1993) no jornal lisboeta Victoria (28.Dez.1945), que assim
iniciava a sua crónica: “Sebastião da Gama - jovem poeta que se estreia -
escreveu estes poemas na bela serra da Arrábida. Um temperamento sensível em
contacto com a grandeza de um quadro natural como aquele, não podia deixar de
originar um poeta.” Defendendo que “a poesia de Sebastião da Gama está
profundamente impregnada de misticismo, filho do ambiente, filho da Serra-Mãe”,
António Quadros considerava estar este livro repleto de poesia que “não é
descritiva, nem simbólica, porque é, principalmente, oração”. Embora Serra-Mãe esteja dividido em seis
partes, o articulista organizava a temática de Gama em três áreas, motivadas,
respectivamente, pela serra, por Deus e pela “vida de todos os dias”. A crónica
finalizava com um comentário que apontava para um bom início — “os poemas de
Sebastião da Gama possuem qualquer coisa de superior à técnica e à própria
imaginação: poesia. O que é mais do que suficiente como ponto de partida” —,
depois de ter reparado que o “principal defeito” do jovem poeta “é ter pouca
imaginação poética”, pois “repisa os mesmos temas” e “canta muitas vezes os
mesmos ideais”.
A recepção crítica de que Serra-Mãe foi objecto prolongou-se por
quase todo o ano de 1946. Logo em 6 de Janeiro, eram publicados dois artigos,
ambos assinados por A. Pinto de Carvalho: no jornal O Sesimbrense e no jornal Novidades.
No primeiro, o autor associava
esta obra do poeta azeitonense à de Frei Agostinho da Cruz pela motivação comum
da Arrábida, afirmando que “a poesia de Sebastião da Gama reflecte uma ânsia
insatisfeita à procura dum complemento” e que “a monotonia silenciosa e
imponente da serra” lhe “afinou as cordas da lira”; no segundo, eram
apresentadas as características da Arrábida que podiam constituir motivos
poéticos (“os segredos dos seus recantos escarpados, das suas bouças e
arvoredo”, o “convívio íntimo da Serra e do Mar” e “a serra com os seus
encantos e surpresas, com a sua tristeza rude e monótona, com a sua amplidão a
um tempo dolente e grandiosa”), era retomada a aproximação a Frei Agostinho da
Cruz e surgia uma apreciação global sobre o livro “de versos, singelos, sim, os
mais deles, daquela singeleza peculiar da vegetação serrana, mas esmaltados de
onde em onde por fulgurações de imaginação criadora que deixam entrever no foco
donde irradiam o estofo de um verdadeiro poeta.”
David Mourão-Ferreira (1927-1996), um
dos primeiros leitores do amigo Sebastião da Gama, fez a sua apreciação no dia
em que o livro apareceu na montra, mas o texto só foi publicado em 7 de Janeiro,
no Jornal de Elvas: “O estilo de
Sebastião da Gama é muito pessoal e tem um curioso cunho de originalidade.
Aproveita-se das liberdades métricas introduzidas pela poesia moderna, mas sem
as exagerar. (…) Podemos notar em muitos versos de Sebastião da Gama a sombra
de Pascoaes e de Régio, mas especialmente deste último.”
Do final do mês é o comentário de João
Pedro de Andrade (1902-1974), que assinava no Diário de Lisboa de 30 de Janeiro: “A poesia é, principalmente, uma
atitude perante a vida. (…) Serra-Mãe é o testemunho iniludível duma
individualidade pujantemente poética. (…) Afirma, na sua linguagem poética, uma
segurança no tom, no estilo, nas imagens, que me parecem as manifestações
sinceras da tal atitude perante a vida que revela o poeta.”
No número 18 de Universitárias - Revista de Cultura, de Janeiro de 1946 (abrangendo
os meses de Janeiro a Abril), Maria de Lourdes Belchior (1923-1998) escrevia um
artigo de duas páginas sobre Serra-Mãe,
a primeira obra do seu amigo Sebastião, teorizando, numa primeira parte, sobre
o valor da palavra poética e sobre a sinceridade e originalidade em poesia,
para, depois, afirmar que “estes poemas de S. Gama são poemas de um homem que a
Serra gerou” e que “a palavra e o homem são apenas o eco da voz que Deus pôs
nas coisas criadas”, razão por que, “também nas coisas pequenas, nos nadas que
não têm em si aparentemente uma estrutura de grandeza, S. Gama descobre o
poético que transforma, ao captar a ressonância misteriosa que as sublima.”
Lourdes Belchior concluía o seu artigo afirmando esperar “ainda mais de um
poeta que procura os seus caminhos” e, a propósito das marcas regianas
presentes em alguns poemas de Serra-Mãe,
aconselhando que o jovem poeta “se liberte de influências” e procure “caminhos
numa conquista serena e forte.”
A opinião de Vitorino Nemésio (1901-1978) apareceria ainda em Fevereiro, em 13, no Diário Popular: “Em Serra-Mãe, palpita todo o autêntico alvoroço de uma consciência que desperta sob o duplo signo da Mística e da Poesia. (…) Sebastião da Gama, inebriado pelas cores da sua Serra, aproveita-as apenas como matéria para compor a sua própria aparência; as formas são nele puro pretexto de exultação. (…) A Poesia exprime-se por si; o poeta é seu lugar-onde. (…) A sua fraseologia é livremente agostiniana e pascoalesca.”
Nota da redacção: O Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a sétima crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 18 de Fevereiro de 2026. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (7)". Nas próximas edições do blogue Synapsis, acompanharemos a publicação deste importante documento sobre o Poeta da Arrábida.
João Reis Ribeiro
Laudate Dominum
Mozart
Uma voz vinda dos céus entoa o Laudate Dominum, do divino Mozart.
A música transporta-nos para a insondável essência da criação, para o grande
mistério trajado de espaço e tempo que nos desafia e deslumbra. O génio de
Mozart, usando as mesmas notas de música do comum dos mortais, entreabriu uma
janela para a eternidade, mostrando-nos a luz abrindo caminho por entre as
trevas abissais do cosmos.
Mozart compôs Laudate Dominum em 1789, em Salzburgo, com a idade
de 24 anos. A composição, que faz parte das Vesperae solennes de Confessore
(K. 339), tem seis andamentos: Dixit Dominus, Confitebor, Beatus vir,
Laudate pueri, Laudate Dominum e Magnificat.
O andamento mais célebre é Laudate Dominum. Composto para soprano
solo e coro, destaca-se pela magnífica beleza melódica e pela atmosfera de
exaltação espiritual que nos eleva às alturas celestiais. É considerada uma das
composições mais sublimes da música sacra ocidental.
https://www.youtube.com/watch?v=q9rvyvssvuI&list=RDq9rvyvssvuI&start_radio=1
Salvador Peres
AGENDA CULTURAL
Um percurso pela Coleção de Arte
e pela história da Fundação EDP
Fevereiro marca o arranque da programação de 2026 no MAAT, com novas
exposições, encontros e momentos performativos que convidam à reflexão e à
experiência sensorial.
No MAAT Central, abrem ao público as primeiras exposições do ano: Turn around. Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP (Parte 1), que propõe um percurso plural através de obras de artistas como Gabriel Abrantes, Luisa Cunha, Ana Jotta, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, entre outros; e A Carpintaria da Central Tejo, 1936-2013, que apresenta ferramentas e outros objetos históricos que evocam o quotidiano fabril da antiga fábrica de energia, local onde viria a ser construído o MAAT. As exposições abrem ao público a 11/02/2026 e são acompanhadas por um programa contínuo de visitas, conversas e atividades ao longo do mês.
Nota: Por motivos relacionados com o declarado estado de calamidade, o MAAT Gallery está encerrado, reabrindo no sábado, dia 7 de fevereiro. Após essa data, poderão ser visitadas as obras de Cerith Wyn Evans instaladas na Galeria Oval e a exposição Notre Feu de Isabelle Ferreira. O MAAT Central permanece aberto.
SP
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Concerto Nude Duo
Com Joana Sá e Luísa Gonçalves
'Nude' pretende ser esse livre encontro de peregrinos, pois apesar de todas as inovações da contemporaneidade, sobrevive ainda, numa linhagem por contágio, uma cultura bardina basilar. Um compartilhar das histórias de viagens de cada qual numa experimentação conjunta a sonhar e trilhar novos caminhos, com a saxofonista Joana Sá e a pianista Luísa Gonçalves.
Galeria Passevite, em Lisboa. Quarta-feira, dia 25, às 21 horas. Entrada livre
José Alex Gandum
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Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum
Textos: João Reis Ribeiro, José Alex Gandum, Manuel Falcão e Salvador Peres
Imagens: Carlos de Medeiros, José Alex Gandum e Salvador Peres
Imagem de capa: José Alex Gandum
Edição de Salvador Peres















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