Carlos de Medeiros - A autorrepresentação como elemento ficcional

 


A fotografia de Carlos de Medeiros é indissociável do seu trabalho enquanto actor, em cerca de três dezenas de peças e quatro filmes. O teatro e o cinema fizeram-no viver personagens, sentir a leitura de forma diferente, explorar o que fica para além das palavras. A Gaivota, de Tchekov, que representou o tetro no início da sua carreira, marcou-o de forma peculiar. Nos trabalhos que expõe nesta sua última exposição, Turdus Merula, a designação científica do melro-preto, as asas dos pássaros, esse instrumento de liberdade que os homens procuraram durante séculos replicar, são elementos presentes no seu imaginário e uma constante da sua vida: nos Açores, onde nasceu e que visita com frequência e na Azóia, junto ao Cabo Espichel, onde se refugia muitas vezes.

No portefólio que se apresenta aos nossos leitores, constam algumas fotografias dessa exposição, inspirada num texto dos Contes Cruels de Octave Mirabeau, Les Corneilles (Os Corvos).

É curioso notar que, no Teatro, sendo actor, como na fotografia Carlos Medeiros comporta-se como um encenador, preparando o que vai fotografar, escolhendo locais e adereços, dirigindo-se a si próprio no personagem que é o narrador de toda a história, uma história onde o espaço exterior se cruza com interiores, numa espécie de sucessão de cenários, que evocam a sedução, a transformação, a morte e a solidão.

Como tem acontecido ao longo dos seus trabalhos de fotografia, Carlos de Medeiros assume a autorepresentação e utiliza-a como mais um elemento ficcional.  Mostra-se, desafia o olhar, está dos dois lados da câmara fotográfica numa permanente duplicidade. É este o ponto em que as experiências, enquanto actor e fotógrafo se cruzam, numa narrativa de intimidades e partilha de sensibilidades e segredos que faz através das imagens.







A exposição de fotografia "Turdus Merula - du ciel silencieux", do artista Carlos de Medeiros, está patente no Núcleo de Santo André do Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, Açores. Inaugurada a 9 de outubro, a mostra explora a figura do melro-preto através de 21 fotografias que dialogam com o texto "Les Corneilles" de Octave Mirbeau, abordando temas como a intimidade, solidão e a ligação do autor à ilha. Está patente ao público até 16 de Março de 2026.

Manuel Falcão





Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (7)

              

Ainda em 1945, quase no findar do ano, o livro Serra-Mãe foi objecto de apreciação por António Quadros (1923-1993) no jornal lisboeta Victoria (28.Dez.1945), que assim iniciava a sua crónica: “Sebastião da Gama - jovem poeta que se estreia - escreveu estes poemas na bela serra da Arrábida. Um temperamento sensível em contacto com a grandeza de um quadro natural como aquele, não podia deixar de originar um poeta.” Defendendo que “a poesia de Sebastião da Gama está profundamente impregnada de misticismo, filho do ambiente, filho da Serra-Mãe”, António Quadros considerava estar este livro repleto de poesia que “não é descritiva, nem simbólica, porque é, principalmente, oração”. Embora Serra-Mãe esteja dividido em seis partes, o articulista organizava a temática de Gama em três áreas, motivadas, respectivamente, pela serra, por Deus e pela “vida de todos os dias”. A crónica finalizava com um comentário que apontava para um bom início — “os poemas de Sebastião da Gama possuem qualquer coisa de superior à técnica e à própria imaginação: poesia. O que é mais do que suficiente como ponto de partida” —, depois de ter reparado que o “principal defeito” do jovem poeta “é ter pouca imaginação poética”, pois “repisa os mesmos temas” e “canta muitas vezes os mesmos ideais”.            

A recepção crítica de que Serra-Mãe foi objecto prolongou-se por quase todo o ano de 1946. Logo em 6 de Janeiro, eram publicados dois artigos, ambos assinados por A. Pinto de Carvalho: no jornal O Sesimbrense e no jornal Novidades. No primeiro, o autor associava esta obra do poeta azeitonense à de Frei Agostinho da Cruz pela motivação comum da Arrábida, afirmando que “a poesia de Sebastião da Gama reflecte uma ânsia insatisfeita à procura dum complemento” e que “a monotonia silenciosa e imponente da serra” lhe “afinou as cordas da lira”; no segundo, eram apresentadas as características da Arrábida que podiam constituir motivos poéticos (“os segredos dos seus recantos escarpados, das suas bouças e arvoredo”, o “convívio íntimo da Serra e do Mar” e “a serra com os seus encantos e surpresas, com a sua tristeza rude e monótona, com a sua amplidão a um tempo dolente e grandiosa”), era retomada a aproximação a Frei Agostinho da Cruz e surgia uma apreciação global sobre o livro “de versos, singelos, sim, os mais deles, daquela singeleza peculiar da vegetação serrana, mas esmaltados de onde em onde por fulgurações de imaginação criadora que deixam entrever no foco donde irradiam o estofo de um verdadeiro poeta.”

David Mourão-Ferreira (1927-1996), um dos primeiros leitores do amigo Sebastião da Gama, fez a sua apreciação no dia em que o livro apareceu na montra, mas o texto só foi publicado em 7 de Janeiro, no Jornal de Elvas: “O estilo de Sebastião da Gama é muito pessoal e tem um curioso cunho de originalidade. Aproveita-se das liberdades métricas introduzidas pela poesia moderna, mas sem as exagerar. (…) Podemos notar em muitos versos de Sebastião da Gama a sombra de Pascoaes e de Régio, mas especialmente deste último.”

Do final do mês é o comentário de João Pedro de Andrade (1902-1974), que assinava no Diário de Lisboa de 30 de Janeiro: “A poesia é, principalmente, uma atitude perante a vida. (…) Serra-Mãe é o testemunho iniludível duma individualidade pujantemente poética. (…) Afirma, na sua linguagem poética, uma segurança no tom, no estilo, nas imagens, que me parecem as manifestações sinceras da tal atitude perante a vida que revela o poeta.”

No número 18 de Universitárias - Revista de Cultura, de Janeiro de 1946 (abrangendo os meses de Janeiro a Abril), Maria de Lourdes Belchior (1923-1998) escrevia um artigo de duas páginas sobre Serra-Mãe, a primeira obra do seu amigo Sebastião, teorizando, numa primeira parte, sobre o valor da palavra poética e sobre a sinceridade e originalidade em poesia, para, depois, afirmar que “estes poemas de S. Gama são poemas de um homem que a Serra gerou” e que “a palavra e o homem são apenas o eco da voz que Deus pôs nas coisas criadas”, razão por que, “também nas coisas pequenas, nos nadas que não têm em si aparentemente uma estrutura de grandeza, S. Gama descobre o poético que transforma, ao captar a ressonância misteriosa que as sublima.” Lourdes Belchior concluía o seu artigo afirmando esperar “ainda mais de um poeta que procura os seus caminhos” e, a propósito das marcas regianas presentes em alguns poemas de Serra-Mãe, aconselhando que o jovem poeta “se liberte de influências” e procure “caminhos numa conquista serena e forte.”

A opinião de Vitorino Nemésio (1901-1978) apareceria ainda em Fevereiro, em 13, no Diário Popular: “Em Serra-Mãe, palpita todo o autêntico alvoroço de uma consciência que desperta sob o duplo signo da Mística e da Poesia. (…) Sebastião da Gama, inebriado pelas cores da sua Serra, aproveita-as apenas como matéria para compor a sua própria aparência; as formas são nele puro pretexto de exultação. (…) A Poesia exprime-se por si; o poeta é seu lugar-onde. (…) A sua fraseologia é livremente agostiniana e pascoalesca.”

Nota da redacção: O Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a sétima crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 18 de Fevereiro de 2026. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (7)". Nas próximas edições do blogue Synapsis, acompanharemos a publicação deste importante documento sobre o Poeta da Arrábida.


João Reis Ribeiro




Laudate Dominum

Mozart

 

Uma voz vinda dos céus entoa o Laudate Dominum, do divino Mozart. A música transporta-nos para a insondável essência da criação, para o grande mistério trajado de espaço e tempo que nos desafia e deslumbra. O génio de Mozart, usando as mesmas notas de música do comum dos mortais, entreabriu uma janela para a eternidade, mostrando-nos a luz abrindo caminho por entre as trevas abissais do cosmos.

Mozart compôs Laudate Dominum em 1789, em Salzburgo, com a idade de 24 anos. A composição, que faz parte das Vesperae solennes de Confessore (K. 339), tem seis andamentos: Dixit Dominus, Confitebor, Beatus vir, Laudate pueri, Laudate Dominum e Magnificat.

O andamento mais célebre é Laudate Dominum. Composto para soprano solo e coro, destaca-se pela magnífica beleza melódica e pela atmosfera de exaltação espiritual que nos eleva às alturas celestiais. É considerada uma das composições mais sublimes da música sacra ocidental.

 

https://www.youtube.com/watch?v=q9rvyvssvuI&list=RDq9rvyvssvuI&start_radio=1

 

Salvador Peres


AGENDA CULTURAL




Um percurso pela Coleção de Arte 

e pela história da Fundação EDP

 

Fevereiro marca o arranque da programação de 2026 no MAAT, com novas exposições, encontros e momentos performativos que convidam à reflexão e à experiência sensorial.

No MAAT Central, abrem ao público as primeiras exposições do ano: Turn around. Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP (Parte 1), que propõe um percurso plural através de obras de artistas como Gabriel Abrantes, Luisa Cunha, Ana Jotta, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, entre outros; e A Carpintaria da Central Tejo, 1936-2013, que apresenta ferramentas e outros objetos históricos que evocam o quotidiano fabril da antiga fábrica de energia, local onde viria a ser construído o MAAT. As exposições abrem ao público a 11/02/2026 e são acompanhadas por um programa contínuo de visitas, conversas e atividades ao longo do mês.

Nota: Por motivos relacionados com o declarado estado de calamidade, o MAAT Gallery está encerrado, reabrindo no sábado, dia 7 de fevereiro. Após essa data, poderão ser visitadas as obras de Cerith Wyn Evans instaladas na Galeria Oval e a exposição Notre Feu de Isabelle Ferreira. O MAAT Central permanece aberto.


SP


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Concerto Nude Duo

Com Joana Sá e Luísa Gonçalves

'Nude' pretende ser esse livre encontro de peregrinos, pois apesar de todas as inovações da contemporaneidade, sobrevive ainda, numa linhagem por contágio, uma cultura bardina basilar. Um compartilhar das histórias de viagens de cada qual numa experimentação conjunta a sonhar e trilhar novos caminhos, com a saxofonista Joana Sá e a pianista Luísa Gonçalves.

Galeria Passevite, em Lisboa. Quarta-feira, dia 25, às 21 horas. Entrada livre


José Alex Gandum


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Exposição de Aguarelas 
de Madureira Pais na Escola Conde Ferreira

O aguarelista setubalense Madureira Pais inaugurou no passado Sábado, na Escola Conde Ferreira, em Setúbal, uma Exposição de Aguarelas com o título 'Tróino veio à Escola'. A Exposição vai estar em exibição até dia 12 de Março. Entrada livre.



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Feira de Turismo de Lisboa inaugura 
no dia 25 de Fevereiro com presença da Região de Setúbal

A Bolsa de Turismo de Lisboa 2026 (BTL '26) inaugura na quarta-feira, dia 25 de Fevereiro, na FIL, em Lisboa, e prolonga-se até dia 1 de Março, com recorde de expositores nacionais e estrangeiros. A região de Setúbal volta a estar presente integrada no Pavilhão da Entidade Regional de Turismo da região de Lisboa, promovendo o seu destino turístico, gastronomia e produtos regionais. 

Nos anos anteriores a Região de Setúbal tem estado fracamente representada, geralmente no final do Pavilhão 1, onde cada concelho tem tido um pequeno espaço. A Serra da Arrábida tem estado sempre mal representada, o que, por um lado, não é negativo de todo, pois o Parque Natural da Arrábida, como zona ambientalmente sensível, não suporta turismo de massas. 

Mas o distrito de Setúbal merece turisticamente mais atenção pois os pontos de interesse históricos, patrimoniais, geológicos e outros são dos mais importantes de Portugal. Reportagem na próxima edição do blog Synapsis.

Dias 25, 26 e 27 dedicada a profissionais da área e jornalistas 
Dias 27 (a partir das 17 horas), 28 e 01 de Março aberto ao público em geral




FICHA TÉCNICA

Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum

Textos: João Reis Ribeiro, José Alex Gandum, Manuel Falcão e Salvador Peres

 Imagens: Carlos de Medeiros, José Alex Gandum e Salvador Peres

Imagem de capa: José Alex Gandum

Edição de Salvador Peres










 

 


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