Os infinitos azuis do Sado
Uma nuvem alta sobrevoa o
céu diáfano e uma brisa suave sopra uma fresca aragem de noroeste sobre o
dédalo avermelhado dos telhados dos bairros velhos da cidade. Na face espelhada
do rio reluz uma miríade de diamantes, que cintilam e rebrilham numa reflexão
límpida e cristalina. O rio, sedento da sua amada foz, vem subindo, alongado e
sinuoso, desde as altaneiras montanhas algarvias, galgando barrancos
alentejanos, vagabundeando por entre verdes arrozais, na busca do ansiado
mergulho na frescura da imensidade marítima.
Na frente côncava da cidade, a beira-rio, como num passe de magia, transmuda-se em beira-mar, fundindo-se com o oceano numa variada e infinda paleta de azuis. A água, que ora flui, ora reflui, na eterna dança das marés, lambe docemente as muralhas do porto e cria redemoinhos espiralados de alva espuma de encontro ao areal dourado das praias. Este rio, que contraria azimutes e latitudes e vem correndo, discreto e silente, de sul para norte, e que vai encorpando as águas na sua ânsia estuarina, é o doce Sado. Ele leva às margens por onde escorre docemente o delicado frescor da força primeva que lhe deu origem.
Este rio, que delineou na frente ribeirinha um mar que se arqueia numa deleitosa baía, colorindo de azul um anfiteatro onde se espraia a sonhadora península troiana, é o belo Sado. Ele é o íman que alicia, une e cunha as gentes que acorrem, desde tempos antiquíssimos, ao seu apelo irresistível, moldando o viver da cidade.
Salvador Peres
O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade
Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (10)
Entre os meses de Junho e Outubro de 1946, Sebastião da Gama pôde ainda ler mais cinco comentários ao seu livro Serra-Mãe, publicados na imprensa, assinados por Dinis da Luz (1915-1988), António Russinho (?-década de 1990), Manuel Antunes (1918-1985), Carlos Relvas (pseudónimo de Armando Filipe Cerejeira Pereira Bacelar, 1919-1998) e Joel Serrão (1919-2008).
Na
edição do jornal A Voz, de 10 de
Junho, Dinis da Luz reconhecia que Sebastião da Gama ainda estaria “à espera de
poiso”, detentor de “uma bela e sonora lira”, que denota “uma independência
afoita, sinal de viva personalidade numa idade em que a ousadia dificilmente se
furta à tutela dos grandes”, apesar de reconhecer que, de vez em quando, “José
Régio sai-lhe ao caminho”. Quanto às marcas de Frei Agostinho da Cruz, o
crítico considerava serem “variações modernas, originais, em novas medidas, de
uma inspiração antiga”, concluindo o artigo cheio de esperança: “O poeta tem
alma suficiente para uma família de cultores da poesia.”
Cerca de
duas semanas depois, em 23, no albicastrense Reconquista, A. Russinho interpelava: “Quem conhece o recente livro
de poemas Serra-Mãe, com que o jovem
poeta Sebastião da Gama se estreou?” Depois, apresentava-o: “Pois este rapaz de
21 anos, aluno da Faculdade de Letras, acaba de gravar o seu nome na já longa
lista dos nossos poetas. (...) Nos seus olhos, nas suas palavras, na requintada
sensibilidade, enfim, na sua maneira de ser, nota-se que há nele aquele dom com
que Deus costuma premiar as grandes almas.” Para cimentar a sua opinião,
concluía o artigo com citações das apreciações entretanto publicadas por António
Quadros (no jornal Victoria, em
Dezembro de 1945) e por Vitorino Nemésio (no Diário Popular, em Fevereiro de 1946).
Na
edição da revista Brotéria do mês de
Junho, era a vez de o jesuíta e crítico literário Manuel Antunes apontar linhas
de leitura da obra iniciática de Sebastião da Gama, cuja voz poética apresentava
como “o eco já remoto, mas ainda nítido, da voz lírica e religiosa de Fr.
Agostinho da Cruz”, com “muitos e belos cantos, impregnados da mais pura
religiosidade”. Elogiando poemas como “Harpa”, “Vida”, “Oração da Tarde”, “Ressurreição”
e “Oração de Todas as Horas”, a obra era vista como de um “poeta de vincada
personalidade”, que “não se limita a ser o eco, embora remoto, de vozes alheias”,
pois “aos motivos, que recebeu de outrem, imprimiu tonalidades próprias”. A
obra Serra-Mãe surgia como a de “um
poeta de real valor”, eivada de “profundeza e certa originalidade de concepção,
um rico e variado poder expressional, feito de ritmo espontâneo, de imagens
frescas, rescendentes ainda ao perfume silvestre da Arrábida, e entretecido, a
revezes, de belos achados formais”. A concluir o artigo, Manuel Antunes
confessava que leu o livro “várias vezes” e que lhe ficou “a grata impressão de
que uma nova estrela de brilho invulgar se acendera no céu atormentado da
poesia portuguesa dos últimos anos”.
Ainda no
mês de Junho, a edição da revista Vértice,
pela mão de Carlos Relvas, dedicava texto a Serra-Mãe,
numa opinião que assinalava alguns pontos menos positivos: a quantidade de
versos inspirados em José Régio (dando exemplos dos poemas “Vida” e
“Rebentação”); a serra apresentada como “apenas um ‘suporte’ material para toda
a espécie de idealizações do autor”, o que lhe concedia um estatuto de algum
“artificialismo literário”; o tom “confessional” utilizado, que não parecia
aquele que “mais se coaduna com o temperamento do escritor”. No entanto, Relvas
reconhecia nesta obra “inegáveis qualidades de expressão poética que só é pena
que não sejam orientadas num sentido mais humano, nem se apresentem mais
depuradas pelo senso crítico do autor dos excessos de linguagem”. Reconhecendo
as influências dos autores presencistas e de Fernando Pessoa, o crítico
admitia, a finalizar, que, “com este livro, fica em aberto se terá qualidades
de expressão poética original”.
Igualmente
reservada quanto ao sucesso do poeta foi a opinião de Joel Serrão vinda a
público na revista Aqui e Além, em
Outubro de 1946 (publicação de que Sebastião da Gama foi colaborador, inclusive
nesta edição). Num longo artigo, Serrão começava por dizer que este livro “sugere
maior número de reservas do que de louvores”, afirmação justificada porque “a maior
pecha de quase todos os poemas de Sebastião da Gama é o eles ficarem-se nessa
região intermediária entre a expressão pessoal e a expressão poética, que,
sendo pessoal, transcende o sujeito que canta”. Confesso admirador do texto
“Pequeno Poema”, o crítico reconhecia ao autor “evidente sensibilidade de
poeta”, mas ainda sem “uma expressão poética adequada à riqueza do seu mundo
emotivo”, apesar de a sua “linguagem poética sobejamente nos evidenciar um
poeta pleno de coisas para nos dizer”. No final, Joel Serrão confessava: “A sua
poesia interessou-me. (...) Sebastião da Gama revela-se sem dúvida um poeta,
independentemente de não ter conquistado ainda a mestria artística sem a qual a
poesia dificilmente transborda cá para fora.”
João
Reis Ribeiro
Nota da redacção: O Blogue Synapsis leva ao seu público, nesta edição, a décima crónica de João Reis Ribeiro publicada no espaço de opinião "500 Palavras" do jornal "O Setubalense", em 11 de Março de 2026. A crónica tem por título "Arrábida 'serra-mãe' há 80 anos (10)". Nas próximas edições do blogue Synapsis, acompanharemos a publicação deste importante documento sobre o Poeta da Arrábida.
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AGENDA CULTURAL
Louri BD
Encontro de Banda Desenhada na Lourinhã
Em relação a Henrique e Duarte Gandum, a obra que lançaram agora,
´Portugal Jurássico' foi uma encomenda do Museu dos Dinossauros da Lourinhã
(terra por excelência do estudo dos gigantes que habitaram o território
que é hoje Portugal há muitos milhões de anos) dirigida aos mais novos
entusiastas dos dinossauros, mas não só, já que pode ser consultada em qualquer
idade!
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O Cinema e a Fotografia ou a Fotografia no Cinema vão estar em
debate no Teatro Chapitô, em Lisboa, no próximo dia 24 de Março, terça-feira,
no Espaço Cinetendinha, no Teatro Chapitô, em Lisboa. Os convidados são os
fotógrafos Luiz Carvalho e Ivo Canelas e o realizador e crítico de cinema José
Vieira Mendes, além de outros participantes. O evento começa às 19h30 e é
de entrada livre.
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Na última quinta-feira de cada mês, há música ao vivo e degustação de vinho no Museu de Lisboa - Teatro Romano,na habitual Hora de Baco. No dia 26 de Março, a intervenção musical estará a cargo do duo Teresina, de Teresa Corrado e Salvatore Cortone, um projecto de música que celebra o património popular do Sul de Itália, entrelaçando raízes mediterrânicas com novas sonoridades, num diálogo entre passado e presente, festa e ritual. O evento começa às 18 horas e a entrada é livre.
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No MAEDS
Exposição 'Territórios do Tempo e da Imaginação'
No dia 28 de março, às 16h00, inaugura no MAEDS – Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal a exposição “Territórios do Tempo e da Imaginação”.
A exposição reúne duas mostras:
“Corpo.Semente”, de Cristina Arvana, onde
desenho, barro, têxteis e palavra exploram o corpo, a memória e um feminino em
constante transformação.
“Património Industrial – A Singularidade dos Ambientes”, de Rosa
Reis, que apresenta fotografias a preto e branco dedicadas à identidade e à
memória de espaços marcados pela atividade industrial.
Dois universos visuais que se encontram entre matéria, memória e tempo.
Entrada livre
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FICHA TÉCNICA












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