Pelo Pontal dos Musgos à beira do Sado

 

E se tantas vezes o Synapsis e os seus convivas têm desfrutado do Estuário do Sado acessado pelo interior da Herdade de Gâmbia, desta vez a caminhada foi até ao Pontal dos Musgos, com caminho paralelo ao Estuário e com regresso pelo interior da Herdade, assim uma espécie de pré-Alentejo, onde sobreiros centenários são o elemento principal da paisagem. 

As caminhadas Synapsis não são só para caminhar e tirar fotografias, são também para ouvir histórias, estórias e desta vez mesmo segredos científicos e curiosidades sobre o Estuário do Sado e a sua envolvente. Privilégio da presença do synapsisano Eduardo Carqueijeiro, antigo Director da Reserva do Estuário do Sado. E, como não podia deixar de ser, também as palestras do contador-mor de histórias do Synapsis, e nosso guia, Nuno David.

A caminhada desembocaria na Adega/loja da Herdade de Gâmbia, onde o também synapsiano Francisco Borba estava à espera dos caminhantes para dedos de conversa e aconselhamentos vinícolas e não só... em resumo, uma manhã primaveril com cheirinho a Verão por entre paisagens preservadas, que deixou em todos os convivas uma vontade unânime: voltar à Gâmbia logo que possível

 

José Alex Gandum

 

O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade



O Sebastião, o Português e o Alemão

 


Interrompo o itinerário de Sebastião da Gama, porque a vida assim o obriga. Num instante, sou detido por um acontecimento: deixou-nos, no passado dia 5 de Março, o escritor António Lobo Antunes.

Confesso que a angústia me tomou o espírito ao ouvir a notícia na rádio, enquanto me dirigia para Setúbal. Explicá-lo tomaria mais do que o espaço desta coluna e apenas indirectamente se relacionaria com o objecto da mesma.

Mas não posso deixar de evocar o escritor que foi um leitor rendido de Sebastião da Gama: “quantas vezes me vem à cabeça aquele pequenino poema de Sebastião da Gama: ‘A corda tensa que eu sou/ o Senhor Deus é quem/ a faz vibrar (…) ai linda longa melodia imensa/ pelos dedos passa Deus e então /já sou apenas som/ e ninguém se lembra mais da corda tensa’. É que não escrevo assim tão bem, trabalho sem plano e quase me limito a assistir ao que vai ficando no papel. O meu único mérito é fuçar o dia todo, até ser apenas som”.

Mais recentemente, em 2023, descobri, através de uma sobrinha do escritor, que o Sebastião da Gama era uma leitura familiar. Inclusivamente, um dos seus tios havia musicado o poema “Canção da Felicidade” de Sebastião da Gama, entoado muitas vezes em família.

Ao saber isto, escrevi ao escritor, já doente, uma carta onde afirmava que gostava dele. Em troca, já o sabia, não poderia receber uma carta. Mas também não esperava o que me foi dado. Recebi, então, uma gravação no whatsapp, com o António a entoar o poema “Canção da Felicidade”, assim como uma dedicatória naquele que viria a ser o seu último livro e que jamais poderei esquecer “Para o Lourenço do António Lobo Antunes que começou agora a gostar do que escreveu, com um grande abraço”.

Mas em Março não perdemos só um escritor. Perdemos também um amante das Artes. A 19 de Março faleceu o mecenas alemão Hans-Peter Bühler, marido de Marion Bühler-Brockhaus, com quem instituiu, também num dia 19, muito embora do mês de Setembro de 2008, a Fundação Bühler-Brockhaus. O casal, que se conhecera em Estugarda no ano de 1959, reside, desde 2006, em Setúbal.

A eles deve Setúbal o enriquecimento do seu património cultural e o usufruto desse património, através da intensa atividade filantrópica que desenvolveram.

A Associação Cultural Sebastião da Gama também beneficiou da boa-vontade do casal, e não o esquece. A Fundação foi parceira da Associação, tendo apoiado a edição do CD “Meu Caminho é Por Mim Fora”, em 2011. Tendo patrocinado a edição mediante a aquisição de 50 CD, apenas conservou para si 1 deles. Os restantes foram oferecidos a todas as escolas públicas do concelho de Setúbal - desde o 1º Ciclo ao Politécnico, incluindo a Escola Profissional, participando assim, de forma activa, na divulgação da obra do poeta da Arrábida e na preservação da sua memória.

Muita falta fará a Setúbal – e tenho dúvidas se algum dia seremos capazes o merecer.

 

Lourenço de Morais

Nota: Texto publicado na edição de Abril do Jornal de Azeitão


O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade




Tabaqueando

 

Naquele fim de tarde estava-se bem, em calma esplanada, na esquina de duas vias importantes da cidade. Uma brisa, ligeira e morna, afagava suavemente os clientes presentes, que não eram muitos.

Pela rua o tempo escorria, pastosamente. Ninguém parecia ter pressa, naquela cidade com dimensão humana. As pessoas moviam-se todas ao mesmo ritmo, lento e cadenciado, os automóveis perderam as acelerações e as buzinas. Vida calma, paz mental, assim me encontrava quando fui acordado por um grupo de jovens, de ambos os sexos, que chegaram e tomaram lugar ocupando duas mesas que juntaram. Eram nossos vizinhos da próxima Galiza que não são tão barulhentos como os seus conterrâneos mais a sul, ainda assim, alegres e faladores.

Vieram os refrescos, houve risota e falatório. Uma jovem abriu a malinha. Imaginei que ia procurar o batom para retocar os lábios. Puro engano, de dentro da malinha saiu um pequeno objecto, espalmado, com um tubinho que a jovem levou à boca, sugou encovando as bochechas e, depois, projectando para a frente o maxilar inferior, com aparente deleite, expeliu para o ar um vaporzinho que parecia fumo.  Outras jovens a imitaram, com os mesmos jeitos e atitudes. Curiosamente, para mim, só as raparigas o fizeram.

Concluí facilmente que estavam a tabaquear, isto é, através daquele dispositivo inalavam todos aqueles alcaloides que o tabaco contém, mas sem fumar. Sim, porque fumar não é apenas aliviar a pressão que a falta de nicotina provoca. Fumar tem que envolver todo um ritual através do qual se antegoza o prazer que a inalação do nicotínico fumo dá a quem dele depende.

Assim, quando se fumava, este prazer começava com a exibição do maço de cigarros, com ou sem filtro. Depois, aberto o maço, uma pancada seca no indicador espetado provocava a saída de um ou mais cigarros, do qual se escolhia um. Deixado o maço em cima da mesa (quando a cena se passava no café, onde não se falava na proibição de fumar), o acto seguinte era procurar a caixa ou carteira dos fósforos ou o isqueiro. Os isqueiros, sujeitos a licença e respectiva fiscalização, funcionavam a gasolina para as bolsas menos recheadas, ou a gás para quem os podia comprar. Ah! Um isqueiro a gás e da marca Ronson dava algum estatuto, mas os Dupont, amarelinhos e de ouro trabalhado, eram coisa do outro mundo.

Depois, o cigarro era batido, pela extremidade por onde ia ser aspirado, na caixa de fósforos ou no isqueiro, para acomodar bem o tabaco no seu interior.  

Finalmente, colocado entre os lábios e aceso. Primeira aspiração, dedos indicador e médio, qual delicada tenaz, retiravam o cigarro da boca em gesto lento e largo e a fumaça era lançada para o ar. Prazer completo.

Mas os tempos mudaram, hoje, é o tudo e o já, e o fumar não escapa à regra. Se o que interessa é a nicotina, porquê andar com rodeios, vamos a ela o mais depressa possível.

Definitivamente, abandonámos aquela posição filosófica em que o atingir o cume da montanha não é o mais importante, mas o percurso até lá se chegar.

 

José Antunes


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Caminhada Pontal dos Musgos

As fotos dos caminhantes



Anabela Gato


Aurora Carqueijeiro


Carmina Almeida



Eduardo Carqueijeiro



José Alex Gandum



Josete Perdigão


José Antunes



Paula Ramalhete


Sandra Gandum


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FICHA TÉCNICA

Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum

Textos: José Alex Gandum, José Antunes e Lourenço de Morais

 Imagens: Anabela Gato, Aurora Carqueijeiro, Carmina Almeida, Eduardo Carqueijeiro, José Alex Gandum, 

Josete Perdigão, José Antunes, Paula Ramalhete e Sandra Gandum

Imagem de capa: Aurora Carqueijeiro

Edição de Salvador Peres










 

 


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