Arrábida - A luz no Monte Abraão
Deixem-me partilhar convosco uma experiência que não sei se deva
chamar-lhe transcendental ou mística. Bem, o adjectivo pouco importa. Vocês
julgarão. Vamos aos factos.
Verão de 1979, Praia de Albarquel, 23h30
Um jovem casal de namorados, ambos na casa dos vinte anos, está
deitado na areia ainda quente da praia da Albarquel, perto de Setúbal,
contemplando o céu estrelado daquela magnífica noite de verão.
Não há luar. A escuridão é apenas levemente quebrada pelas luzes
difusas da cidade, que brilham ao longe. Seriam para aí umas onze e meia,
quando, uma estranha luz, chama a atenção da jovem.
Intrigada, alerta o companheiro para o fenómeno. Vinda dos lados do
Hospital do Outão, por cima da densa mata que entra pela Serra adentro e vai
até aos bosques da Comenda, duas luzes intensas parecem pairar por sobre a
vegetação. Ao princípio, pareciam faróis de automóvel, mas logo puseram essa
hipótese de lado: um automóvel não podia andar àquela altura, muito acima da
estrada e, além disso, havia a intensidade da luz, não conheciam nenhum
automóvel que gerasse uma luz tão brilhante.
Estavam nesta indecisão, quando as luzes iniciaram um percurso na
direcção da praia, pairaram um pouco por cima das águas e, de súbito, com uma
velocidade alucinante, num mar de luz, desapareceram no céu. O casal ficou
electrizado. Sem palavras, como se tivessem sido atingidos por um raio.
Verão de 1979, Mata da Comenda, 23h30
Éramos cinco rapazes, todos na casa dos vinte anos. Caminhávamos, há
cerca de vinte minutos, em silêncio e numa escuridão absoluta, na direcção da
densa mata da Comenda. Objectivo: cumprir uma praxe antiga. Um grupo de
escuteiros novatos estava acampado na mata e era preciso pregar-lhes a partida
da praxe. Experiência por que nenhum dos que compunha o grupo não tivesse já
passado. A escuridão era total. Não só porque não havia lua, mas, também,
porque naquele local a mata cobria-nos de tal maneira que, mesmo em noites de
lua-cheia, só uma claridade mortiça consegue penetrar na mata. Estávamos a
poucos metros das tendas quando aquilo aconteceu. Foi súbito, arrebatador,
inesperado, fulminante: uma luz cegou-nos completamente. A mata, no espaço de
dois ou três segundos, foi inundada de uma luz branca, intensa, como se o sol
de repente se acendesse perto dos nossos olhos e tudo iluminasse. Ficámos
aturdidos, estáticos, sem reacção. Quando recuperámos, olhámos uns para os
outros e o que vimos no olhar do parceiro foi o mesmo deslumbramento e a mesma
interrogação: o que se teria passado?
Domingo, 10 de Abril de 2002, Monte Abraão, Arrábida
Um grupo de 17 pessoas acabava de subir ao Monte Abraão, na Serra da
Arrábida. Era o culminar de uma jornada cultural que começara no Sábado à
noite, em Setúbal. Chegados lá acima, sentados junto à cruz que dava início à
via sacra dos monges arrábidos que ali viveram desde o século XVI e os levava,
depois, até Azeitão, o Nuno David desafiou-nos a contar histórias passadas, ou
não, na Arrábida. Ele, que na véspera, nos contara várias no sarau de poesia
que então ocorrera. Quando chegou a minha vez, contei duas: a primeira, uma
história de magia que vivi há muitos anos nas falésias da Arrábida. Uma
história que teve o mar, a lua, os pescadores e uma noite de sonho por palco; e
outra, imaginem, a experiência da Comenda. Pois é verdade, eu era um dos cinco
rapazes que ficou deslumbrado por aquela luz estranha e intensa na mata da
Comenda. Quando terminei a história, no silêncio que se seguiu, um homem na
casa dos quarenta, que veio ao passeio acompanhado pela mulher e por uma filha,
olhou para mim e disse-me: eu sei que luz foi essa; eu e a minha mulher também
a vimos na Albarquel, éramos, então, dois jovens namorados. E contou a história
com os pormenores que já leram.
Pois é, meus amigos. Foram precisos 23 anos para que três testemunhas
de um mesmo fenómeno se encontrassem. E, imaginem, na Arrábida, palco desse
estranho fenómeno. Podiam nunca se ter cruzado. Era o mais certo. Terá sido a
força telúrica da Serra que nos juntou?
Salvador Peres
O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade
O autor Pedro Castro Henriques convida para o lançamento do Livro
Animalário, no dia 26 Maio, pelas 18h30, no belo edifício da Biblioteca de
Alcântara, em Lisboa.
Serão dois dedos de conversa pelo autor em torno do tema, com a possibilidade de adquirir o livro.
https://www.facebook.com/watch/?v=2091510864724483&vanity=pplcrowdfunding
Cultura e Biodiversidade da Arrábida
A LASA – Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, convida a participar, no
próximo dia 27 de Maio, pelas 15h20 horas, na sessão de encerramento
da primeira edição do projecto de educação ambiental, Cultura e
Biodiversidade da Arrábida, levado a efeito durante o ano lectivo de 2025 -2026,
em parceria com as Escolas Hermenegildo Capelo e Secundária D. João II.
Deste evento fazem parte:
- Visita guiada à exposição dos trabalhos desenvolvidos pelos
50 alunos participantes no projecto educativo, pelos Professores
Joseph Rodrigues, José Trindade, Maria João Reis, António Chitas e Fernando
Fernandes
- Entrega do Prémio LASA Ambiente e dos Certificados de
Participação
- Palestra sobre cultura e biodiversidade da Arrábida, por
Joaquina Soares
- Momento poético dedicado a Sebastião da Gama, por Sara Loureiro e Nuno
David.
Noite Intimista - Canto e Poesia
A ACPS - Associação Casa da Poesia de Setúbal tem o prazer de convidar para o evento Noite Intimista - Canto e Poesia a decorrer no dia 30 de maio às 21 horas na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal.
Synapsis na Corrida da Mulher
O sYnapsis esteve novamente na Corrida da Mulher que há 20 anos se realiza sempre no mês de Maio, entre Santos e Belém, em Lisboa. Antigamente apenas permitida a Mulheres, a partir de 2022 a prova passou a admitir também Homens. Rosa Mota (na primeira foto, aqui na Corrida de 2011) tem sido a grande motivadora para todas as Mulheres, e não só! As outras imagens são da edição de Domingo passado, a 20ª, tendo sido já patrocinada pela EDP, pelo Banif e nos últimos anos pela Mimosa. Mas não importa quem apoia, o que importa é que esses apoios vão direitinhos para a Liga Portuguesa Contra o Cancro.
A Corrida é sempre abrilhantada por artistas conhecidos. Este ano calhou a vez a Ana Bacalhau (na segunda foto)
Texto e fotos: José Alex Gandum
O Synapsis está a comemorar 16 anos de actividade
FICHA TÉCNICA
Coordenação Editorial de Salvador Peres e José Alex Gandum
Textos: Casa da Poesia, José Alex Gandum, LASA, Pedro Castro Henriques e Salvador Peres
Imagens: Casa da Poesia, José Alex Gandum, LASA, Nuno David, e Salvador Peres
Imagem de capa: Nuno David
Edição de Salvador Peres











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